Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene
O homem avançava pelo lobby do Copacabana Palace e os risos iam surgindo atrás dele sempre que alguém voltava o olhar para suas costas. Quando passou por mim, e realizei o motivo da graça, o detive.
– Companheiro, desculpe abordá-lo assim, mas alguém fez uma brincadeira de mau gosto. Colaram esse cartaz nas suas costas – estava escrito ‘otário’.
– Eu sei. Fui eu mesmo. Quer fazer o favor de me ajudar a colocá-lo no lugar?
– Perdão, mas não entendi. O senhor colou um cartaz de ‘otário’ nas próprias costas?
– Sim.
– A troco de quê alguém faria isso? Faz um juízo tão ruim sobre si? Tem algum prazer em ver os outros caçoando de você?
– Não se trata disso, senhor. O motivo é profissional. Eu ‘midiatizei’ as minhas costas. Entende?
– Mídia, o quê?
– Eu ‘midiatizei’, criei um espaço de mídia nas minhas costas e ele está à venda.
– E que maneira o senhor encontrou de divulgar isso!
– Também não é por aí. Nesse caso, estou recebendo 250 reais por dia para circular por pontos estratégicos da cidade ao longo de duas horas. Bem verdade que os anunciantes são meus amigos de infância e se cotizaram para pagar a quantia. Escolheram os lugares e até estiveram em alguns deles para saber se o serviço estava sendo prestado. Já me contrataram por mais dois dias, tamanha a satisfação.
– Peraí, o senhor deve estar achando que o otário sou eu. Não pode me fazer acreditar numa história maluca como essa. Onde já se viu? Um sujeito vende espaço nas próprias costas, aí vem alguém e paga essa grana toda só para fazer uma piada? Ah, faça-me o favor...
– Mas eles não foram os primeiros. Já tive dezenas de clientes, vendi espaço para empresas como Laticínios Cebalos, Guaraná Brejo e até o famoso Laxante Silverinha. E aí cobrei mais caro. Pessoa jurídica, sabe como é...
– Empresas pagam para anunciar em você?!
– E não é só nas costas... Já vendi espaço nas coxas, nos braços, nos ombros e até na testa!
– Mas quem é o senhor, algum tipo de esportista, piloto de Fórmula 1 ou o quê?
– Não, esses têm empresários gananciosos, que embolsam a maior parte dos rendimentos. Eu fico com tudo.
– Então, é algum profissional de marketing, publicitário, relações públicas...
– Também não. Sou só inteligente.
– E eu que pensei que o senhor fosse mesmo um otário...
Fui acompanhando o homem do cartaz até a entrada do hotel, onde parou uma Mercedes-Benz azul-marinho, estalando de nova. O motorista se apressou para abrir a porta. O sujeito parou diante dela, virou-se para mim com a mão estendida.
– Fim da jornada de hoje. Foi um prazer conhecê-lo.
Atordoado, cumprimentei-o sem palavras. Entrou no carro e abriu o vidro. Antes de partir, me advertiu:
– Cavalheiro, aconselho-o a não copiar a minha idéia. Ela já foi registrada no Instituto de Patentes, e seria fácil tirar um bom dinheiro do senhor, por meio de meus advogados, caso pense em midiatizar alguma parte do corpo, do dedão ao cocuruto. Quem sabe, depois que me aposentar, o senhor possa assumir um lugar de destaque nesse mercado?!
– O senhor já faz planos de parar?
– Sim. Procuro um cliente com nome curto e dinheiro para investir. Precisa ser ousado e ter uma marca forte, bonita e, acima de tudo, legível. Talvez uma empresa de camisinhas...
Isabela Azevedo 3/9/2008 16:39:06
MARAVILHOSO, despretensioso, verdadeiro, intenso, cômico e muito real. Aliás a cara de quem escreveu... AUTÊNTICO e simplesmente Benevides. Muioootos parabéns ao Prof° Benevides. Abraços saudosos ao professor querido.