Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene
O funcionário estava de costas quando ela fez a pergunta. Não pôde conter a surpresa ao se virar para responder. A mulher era bonita demais para desconhecer a diferença dos absorventes. E onde já se viu mulher não entender dessa matéria?!
Ele a conduziu de volta à gôndola, disposto a explicar a função das abas, a natureza das texturas, o maior poder de absorção de um modelo interno. A mulher sorriu, encabulada.
– Meu problema é com as embalagens. Eu fico muito na dúvida sobre qual levar. Uns dizem que possuem agentes naturais, outros têm formato anatômico... é tudo muito confuso.
– Nem sempre, senhora. Precisa entender que essa indústria se aperfeiçoa o tempo todo. Eles fazem produtos para tudo quanto é tipo de consumidor. Veja, por exemplo, esse modelo teen.
A mulher reconheceu a imagem da jovem atriz americana, protagonista de um musical adolescente. Por que ela sorria tanto se estava menstruada?
– E tem também este aqui, com polpa de celulose.
– Qual é a vantagem?
– Ah, é mais moderno, né?! – o funcionário não conseguiu disfarçar alguma ignorância.
– E a diferença para este, que tem gel? Isso vai lambuzar a...?
– Não, senhora. O gel é interno, e está lá para transformar o... bem, a senhora sabe, transformar em cristais de gel.
– E...?
– Bem, deve ser bom. Confortável. Seguro.
A mulher olhou o desenho no verso da embalagem. Era preciso um curso superior pra entendê-lo. A constituição do absorvente, estava claro para ela naquele momento, tinha design assinado pela Nasa, altíssima tecnologia, uma coisa tão sofisticada que certamente ainda seria usada para melhorar o desempenho dos carros de Fórmula 1. Ou das usinas nucleares.
E os atributos! Os pacotes traziam informações de entusiasmar. “Canais que distribuem o fluxo uniformemente”. “Moderno sistema antivazamento”. “Neutralização de odores”. “Previne irritações”. Não seria estranho se uma das embalagens indicasse “Melhora o humor” ou “Diminui o estresse”.
– Mas, veja, esses são da mesma marca e, ainda assim, se apresentam nos modelos soft, dry, ultradry, ultramacio, máxima-proteção, com extrato de algodão, noturno “toque suave”... Acho que eu não me conheceria tanto se tivesse de me decidir por usar um desses. No passado, era mais fácil.
O funcionário do supermercado refletiu por um momento e, então, disse:
– O absorvente não é para a senhora?
– Não. É para minha filha. E, antes que me empurre aquela versão adolescente, preciso dizer que ela já tem 25.
– Desculpe-me dizer, mas a senhora não parece ter a idade de quem tem uma filha de 25.
– Obrigada. Pelo visto, não sou só eu quem tem problemas para “ler as embalagens”.
Ricardo Benevides
http://twitter.com/rbene
Hagall Muniz 5/8/2009 01:57:28
"jovem atriz americana, protagonista de um musical adolescente." rs