Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene
Duas pessoas participam de um chat pela internet. Após alguns minutos falando sobre trivialidades, surge a questão:
– Eu vi você escrever “o” Google e voltei a ficar em dúvida. Por que não “a” Google?
– Fácil. Porque é “o portal” ou “o site”. Masculino.
– Não poderia ser “a página”? Em inglês, isso não fica tão claro. Como uma empresa define o gênero de sua marca? Honda, por exemplo. Masculino ou feminino? Minha irmã diz ter “um Honda”, e o namorado dela diz ter “uma Honda”.
– Aí é simples. Ela tem um carro, ele, uma moto.
– Tá certo, não me expressei bem. Eu tô falando é da marca! Se o gênero acompanhar a natureza do negócio, é feminino. A empresa, a Honda. Mas o fundador é um homem, Soichiro Honda. E agora? E em japonês, será que tem essa história para definir o artigo?
– Continuo sem entender sua dúvida.
– Na verdade, meu problema com o sexo das marcas surgiu há muito tempo, e com outro carro. Minha mãe tinha um modelo 147, e eu encucava toda vez que a ouvia dizer “eu tenho uma Fiat”. Pensava: “Não seria UM Fiat?”. Ou, então, Fiat é fêmea...
– O problema é que o nome da marca também designa a empresa, o grupo empresarial ou o que quer que seja. E aí, na maior parte dos casos em português, a gente usa o gênero feminino. Mesmo quando a empresa é estrangeira, a gente fala assim: a Philips, a Sony, a Xerox, a Canon, a IBM, a Ford, a Volkswagen, a Nike, a Coca-Cola.
– “A” McDonald’s? “A” Citibank? “A” Starbucks?
– Mas aí é “o” restaurante, “o” banco, “o” estabelecimento.
– Estabelecimento? Forçou a barra.
– É, talvez. Mas só estou dizendo que é muito difícil se referir apenas à marca sem que a gente fale também do que ela representa. É coisa de nossa língua. Na reforma ortográfica, alguém tinha de ter se preocupado com coisas assim, não acha?
– Com certeza! Ia ajudar a diminuir minha angústia. Tem tempo que penso nessa questão. Vira uma paranoia! Eu ando na rua e, a todo momento que uma marca me atinge, a tal dúvida toma conta de meu juízo: masculino ou feminino? Macho ou fêmea?
– Você deve sofrer quando acontecem as fusões entre corporações.
– Nem te conto...
– A propósito, estamos neste chat há algum tempo e ainda não sei seu nome.
– Darcy. E o seu?
– Ivanir.
Alguns segundos de silêncio eletrônico e despediram-se, com novas dúvidas.
Ricardo Benevides
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Gabriela Sharp 20/7/2009 17:56:39
Ai, ai, as confusões da nossa língua..muito legal, parabéns!