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Colunas

19/6/2009
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HUMOR ACIMA DA MÍDIA

Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene

O Trauma Verde

Normalmente, um psiquiatra começa a compreender a gravidade dos problemas de seu novo paciente logo no primeiro contato visual, quando ele cruza a porta do consultório pela primeira vez. São pequenos sinais, coisas mínimas, e já dá pra ter uma ideia do grau de maluquice do camarada.

Se o sujeito vem com os olhos vermelhos, é possível supor o choro anterior, oriundo de alguma crise, talvez separação, demissão ou distúrbios emocionais. Se ele para na porta, esperando ser chamado, é fácil o diagnóstico, problema de amor próprio.  Quando o sujeito chega sorrindo, das duas uma: ou é um psicopata pronto para o último ataque mortal antes do suicídio, ou deve ao banco e a todo mundo; nesse caso, ri do psiquiatra à sua frente, antevendo o calote futuro.

Mas o que pensar quando um sujeito entra no consultório carregando uma melancia embaixo do braço? Déficit de atenção, só pode! Foi o que meu terapeuta pensou. O paciente novo logo desfez o engano:

 – Doutor, eu preciso da sua ajuda, aliás, o mundo todo precisa. O mundo está em perigo, doutor. Não sei o que mais posso fazer pra salvá-lo. E a culpa de ele estar assim é minha, eu sei, eu vi num site, eu li num livro, eu ouvi no rádio. Tudo ao redor indica, doutor, que se o mundo acabar, a culpa é minha!

O psiquiatra fez que sim, com a cabeça. E já ia pegando o telefone para pedir a ambulância – o caso parecia terminal; quadro de paranoia, com síndrome de perseguição e complexo de inferioridade – quando o sujeito continuou seu relato.

– Doutor, eu comecei a sentir isso ao ver aquelas mensagens nos supermercados, dizendo para eu comprar bolsas de pano, evitando usar os sacos plásticos, que eles demoravam séculos para desaparecerem no meio ambiente. Um dia, ponderei sobre aquilo, achei importante. E desde então fiquei obsessivo...

 – Defina “obsessivo” – psiquiatras gostam de usar essas expressões: “defina”, “explique melhor”, “fale sobre isso”, “como se sente?”.

 – Voltei pra casa carregando tudo numa sacola comprada no mercado mesmo. Vi que ela era “ambientalmente correta”, feita com fios de casca de coco. Foi aí que comecei a pensar em tudo o que faço e a mudar meus hábitos. No início, me senti muito bem! Fiquei feliz de diminuir o número de impressões em papel – antes eu imprimia qualquer coisa; com o tempo, percebi que um pequeno gesto meu podia reduzir o desmatamento. Parei de usar o carro, comprei uma bicicleta. Investi num moderno sistema de captação de energia solar para minha casa. Eu virei o “senhor sustentabilidade”, entende?
 
– Sim. Só não entendo como isso pode ser ruim.
 
– Eis a questão, doutor. Não é ruim. É pouco! O planeta está doente! Eu economizava dez folhas de papel, mas era pouco, precisava mais! Quebrei minha impressora. E quando perdi o emprego – eu xinguei o antigo chefe, aquele irresponsável que deixava a torneira aberta no banheiro toda vez que ia lá gastar metros e metros de papel higiênico – na hora de me recolocar, não tive coragem de imprimir um currículo. Minha mulher me deixou, dizendo que eu estava maluco. O senhor quer saber? Nem achei ruim... todo dia ela cozinhava para três, e éramos só nós dois em casa. Eu já não conseguia dormir, pensando nos restos que iam pro lixo. Doutor, isso pra não falar do absurdo maior: ela cheirava a petróleo.

 – Como é que é?
 
– É, doutor. Petróleo! Esse recurso mineral escasso, finito, que está em tudo quanto é plástico do mundo. Meu Deus, aquela mulher tinha um talento para comprar tudo o que tem petróleo em sua composição. Bijuteria, roupa sintética, tudo como muito náilon, tintas e mais tintas, um horror.

– Meu amigo, não acha que está exagerando em suas preocupações ambientais? Afinal, de que valem essas medidas todas se não consegue viver bem?
 
– Às vezes acho que sim, às vezes não. Doutor, eu tenho cura?
 
– Certamente. Vamos trabalhar juntos nisso. Antes, porém, me diga... Por que a melancia?
 
– Muitas sementes. O senhor sabe: a gente come, a gente tem que plantar. Para garantir que não falte no futuro. Sustentável, entende?
 
O médico ficou pensativo por uns instantes. E então disse:
 
– Por que não um mamão? É menor, tem mais sementes e o senhor pode comê-lo sozinho, sem desperdício.
 
***** 

 Minutos depois, a secretária abriu a porta do consultório e ficou paralisada ante a cena: o médico tentava, sem sucesso, consolar o paciente que chorava sem parar, mantendo sempre dois copinhos (de papel) próximos aos olhos, reservando as lágrimas que lhe escorriam pela face. Existe um bem mais precioso que a água? Talvez o equilíbrio.

 

Ricardo Benevides
 


COMENTÁRIOS( 2 )




 

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Clarissa       30/9/2009 23:39:15
Tô ficando com medo do cara da melancia ser vc.. Muito bom!

Gabriela Sharp       19/6/2009 15:49:02
Hilário!!! rs....Adorei!! bj gabi

 
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