Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene
O local do encontro seria um bar, próximo à Estátua da Sereia, monumento dos mais conhecidos na cidade de Varsóvia, na Polônia. Ele estaria usando um computador portátil, cor de prata.
Na porta, percebi que deveríamos ter escolhido outro código para identificá-lo: seis pessoas no bar digitavam em computadores portáteis; dos seis, cinco eram prata.
Caminhei lentamente até que um sujeito segurou meu braço:
– Sente-se. Sou o Agente M.
– Ué, cadê o laptop prateado?
– Não era preciso. Eu iria reconhecer você, tem cara de brasileiro.
Fiquei sem entender se era elogio ou escárnio. Mas me sentei e pedi um café. O sujeito olhava para os lados, certamente para se certificar de que não éramos observados.
– Você fala português, pensei que tivéssemos de tentar outra língua para nos comunicar.
– Agentes secretos precisam conhecer vários idiomas. Nunca viu filmes sobre o tema? E, a propósito, já ouviu falar em globalização?
Dessa vez, eu tinha certeza, o Agente M tratava com ironia minha ignorância. Não me defendi e fui direto ao assunto.
– Você tinha algo a me contar sobre uma conspiração. Tem a ver com o roubo das armas nucleares?
– Psiu! Não use essas palavras! Podem nos ouvir. Sim, a conspiração envolve “os pacotes de bala”. Mas nós recuperamos todos. O grupo era composto por chineses.
– E eles usariam contra quem?
– Não era “contra quem”, mas sim “onde” – o Agente M fez uma breve pausa, estabelecendo o suspense. – Eles tinham intenção de explodir esses “pacotes” na superfície da Lua.
Nos tempos da Guerra Fria, ouvi falar sobre a importância geopolítica de conquistar a Lua, não de acabar com ela. O Agente M, entretanto, logo desfez meu engano. Os chineses não pretendiam varrer o satélite do mapa galáctico. A ideia era bem outra.
Eles queriam posicionar os “pacotes” de jeito que as explosões abrissem novas crateras. E essas fendas, juntas, formariam um desenho, que poderia ser visto a olho nu aqui da Terra.
– Como assim, todo esse esforço, uma conspiração internacional, só pra escrever alguma coisa no solo lunar?! Você deve estar brincando, Agente M. Me fazer vir aqui pra isso?
– Eu disse que era “quente”, você veio porque quis. Mas não está vendo as coisas com clareza. Pense, faça um exercício de imaginação. Sei que é difícil supor, mas se uma nação quisesse anunciar na Lua, precisaria ser uma potência econômica e dominar a tecnologia para esse tipo de “empreendimento”, entende? – ele se referia ao armamento nuclear, claro. – Agora, reflita sobre as vantagens! Já pensou no que seriam as noites de Lua cheia depois de midiatizarem aquele satélite?
Ele deu detalhes da operação. Tudo parecia real, ainda que a história beirasse a fantasia cinematográfica.
– Espera que eu publique isso em meu jornal, no Brasil? Ninguém vai acreditar. Imagine! Um governo conspirando para fazer propaganda na Lua! Pois sim... E, afinal de contas, que nome tão importante seria esse para ganhar o espaço sideral?
– Não é bem um nome. É uma marca. Isso envolve outra investigação. Parece que os chineses estão em vias de fechar um grande negócio e comprar uma cadeia de restaurantes de fast food. A marca, que ganharia visibilidade lunar, seria essa.
– Que marca, agente M?
O sujeito não respondeu. Mas seu silêncio me fez perceber, naquele instante, que o codinome não tinha sido escolhido por acaso.
Ricardo Benevides
Gabriela Sharp 27/4/2009 10:56:53
Adorei!
Mundo doido esse o nosso, hein!?
bj
Gabi