Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene
(Em algum momento entre a década de 1980 e os dias de hoje)
– Senhores, convoquei esta reunião porque estamos prestes a implementar algumas mudanças sensíveis na maneira como nos referimos a nossas operações nesta empresa. Após diagnóstico detalhado, descobrimos que há um grande problema na importância reduzida que damos aos trabalhos aqui. Os nomes que damos a essas tarefas não ajudam a valorizá-las... E, para ajudar a resolver o impasse, contratamos o Steven Walker. Ele é consultor da Naming Projects Inc.
Os presentes se entreolharam sem entender muita coisa. O consultor agradeceu ao presidente da empresa, tomou a palavra e adivinhou a pergunta que estava no ar:
– Muitos de vocês devem estar se questionando “por que mudar os nomes de tudo o que fazemos?”. Vejam só: um nome é mais do que uma maneira de designar alguma coisa no mundo. Se uso uma palavra para representar um objeto, a partir daquele momento, sempre que pensar no tal objeto, minha mente lembrará seu nome por associação.
As atenções estavam no homem, embora a desconfiança fosse geral.
– O problema é que as palavras não são só isso... elas têm poder! Se chamo esta fruta de maçã, ora, isso leva as pessoas a vê-la de um jeito. Mas se chamá-la de “kwan” – e estou inventando a palavra – as pessoas passarão a vê-la de outro jeito.
A gerente de RH não resistiu e perguntou:
– Que outro jeito?
– Não sei! Me diz você – o consultor devolveu a pergunta; consultores adoram fazer isso. – O que essa palavra sugere a você?
A gerente silenciou. O consultor insistiu:
– Vejam o setor de almoxarifado, por exemplo. Existe uma palavra pior do que “almoxarifado”? Ela desestimula qualquer um que venha a trabalhar na área. Minha sugestão é que, a partir de agora, rebatizemos o setor! Ele se chamará “Supply Department”. Que me dizem? Não é mais vigoroso, estimulante, chique, motivador?
Depois de apresentar mais argumentos para legitimar as mudanças de nome, o consultor propôs outras designações: não haveria mais o “refeitório”. A partir dali, eles o chamariam de “espaço gourmet”; estava proibido o uso da palavra “reunião”, pois o novo termo deveria ser “meeting”; os operadores de máquina que trabalhavam na fábrica passariam a ser chamados de “gestores de recursos técnicos” ou simplesmente GRT’s; várias unidades teriam a palavra “estratégica” acoplada a seus nomes.
Não haveria mais “prazo”, e sim “deadline”. E, a partir daquele momento, seria um crime capital usar a expressão “públicos de interesse”, porque “stakeholders” era obviamente melhor!
A imensa maioria dos novos termos tinha origem na língua inglesa, mesmo não sendo a empresa uma multinacional. Questionado, o consultor respondeu:
– É fato. Mas o que se pode fazer se em inglês as palavras soam melhor? Eu posso dizer que alguém é relações públicas, mas acho que gostará muito mais de ocupar um cargo com a denominação “executive affairs”! Ou não? É motivador, entendem?
Uns concordaram. Outros não se renderam tão facilmente.
A proposta envolvia não apenas os nomes das funções e dos lugares, mas também a criação de uma nova linguagem. Ao se referir a um processo, teria de definir quando ele seria “startado” (o novo verbo precisaria ser flexionado corretamente: eu starto, tu startas, ele starta...). A mesma coisa com relação ao verbo “brifar” – e ficaria assim abolida a odiosa ação de “resumir”.
O começo de tudo seria um “brainstorming”, as pessoas fariam “links” entre os conceitos antigos e os termos novos, depois elas tentariam resolver os “gaps” que, porventura, aparecessem.
Então, perto do fim da apresentação, um funcionário mais cético ergueu a mão e pediu a palavra:
– Sr. Walker, e se nós não nos adaptarmos a esses novos nomes? Não é má vontade, veja bem. Mas a preocupação maior não tinha de ser com os conceitos, com o sentido das coisas? Se chamo meu trabalho de um jeito ou de outro, será que o mais importante não é saber fazê-lo?
O consultor Steven Walker (nascido e batizado como Estevão Passos) abriu um meio sorriso enigmático:
– Rapaz, bem se vê que você não está muito por dentro do “business”.