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Colunas

13/3/2009
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HUMOR ACIMA DA MÍDIA

Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene

Boca de Urna

Um dia antes da eleição e a cidade está em pé de guerra. Ânimos à flor da pele, os partidários mais ativos do que nunca tomam as ruas, espalham seus dizeres, entoam cânticos, empunham bandeiras. Uns porque acreditam, outros porque ganham alguma grana pra fazer aquilo.
Nesse dia, o sujeito sai do trabalho em direção ao metrô e se impressiona com o fato de que a cidade consegue ficar cada vez mais suja, a cada eleição. Antes de pegar a escada rolante, vê um enorme amontoado de papel, da altura de uma pessoa, com tudo quanto é panfleto, adesivo, faixa, cartaz e filipeta eleitoreira que se possa imaginar. Volta a olhar pra escada quando ouve o amontoado de papel dizer:
– Então, Roberto, não fala mais com os pobres, não?
Assustado, o homem para e olha de novo em direção à pilha de panfletos, adesivos, faixas. Com muito custo, consegue divisar dois olhos no meio daquele monumento aos ideais partidários mais radicais. Se aproxima e finalmente identifica a voz que interrompeu sua caminhada.
– Maria Luiza? O que você está fazendo aí dentro dessa montanha de papel? Você enlouqueceu?
– Veja lá como fala comigo, Roberto! Não somos mais casados e eu me encontrei como pessoa quando entrei para o movimento. A causa do Partido Igualdade Social Esquerda Libertária Democrática Atuante é muito nobre. Você devia se informar mais sobre os ideais do PISELDA.
– PISELDA?
– É a sigla. Venha, pegue aqui um folheto sobre a história do partido. É só puxar um destes aqui, presos no meu braço esquerdo. É o amarelo!
Relutante, o homem retira um dos incontáveis papéis grudados no corpo da mulher.
 – E então, como vai você? Continua alienado, sem opinião e nem participação política?
 Antes que ele pudesse responder à agressão em forma de pergunta, a mulher fez um movimento brusco e retirou de dentro da montanha de papéis um megafone.  E rapidamente posicionou-o próximo à boca, acionou o dispositivo e começou a berrar:  PARA GOVERNADOR, VOTE EM LEÓN! VOTE PISELDA! FORA FMI, IPI E O CACIQUE GUAIAQUI!
 – Cacique Guaiaqui? Quem é esse, Maria Luiza?
 – Parecia alguém ligado à questão dos excluídos, das minorias. Mas ele se vendeu ao sistema.
 O homem ergueu os olhos ao céu, balançando a cabeça.
 A militante então continuou suas críticas ao ex-marido, desfilando um repertório interminável de acusações. De que ele nunca teve consideração pelas ideias dela, enquanto eram casados. De que ele fazia dela quase uma escrava. Depois, voltou suas baterias para a sucessora, a atual namorada do sujeito: queria  saber em qual filme de terror ele tinha encontrado ela e como era dormir ao lado de alguém sem cérebro.
 Roberto ouviu tudo pacientemente. Bem, nem tanto – não conseguiu responder, ela não fazia vírgula em seu discurso; não parou de falar nem para acender e disparar dois morteiros, causando o maior estrondo e, em seguida, acionar de novo o megafone e conclamar os eleitores ao voto no PISELDA.
 Enquanto ela matraqueava, Roberto desviou sua atenção para os dizeres espalhados em seu corpo, em faixas, adesivos e folhetos. Zonzo com o discurso panfletário e  cansado de ouvir a ex-mulher e seus comentários ácidos, ele pensou na única coisa que a deixaria irritada, o único jeito de encerrar aquele reencontro infeliz.
 – Maria Luiza, sabe qual é o seu problema? E sabe por que o PISELDA nunca vai ser um grande partido?
 A mulher não disfarçou o ânimo: a discussão continuaria.
 – Ah, uma opinião! Vamos, diga, Roberto. Qual é o meu problema?
 – Não conto. Morra sem saber!
 Se virou e foi embora, com o leve sorriso no canto dos lábios. Quando desceu as escadas pensou em como é triste a mágoa entre ex-casados. E como pode ser precioso um momento de silêncio.

 

Ricardo Benevides


COMENTÁRIOS( 2 )




 

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XXX

Caio Sarpa       21/3/2009 11:34:03
muito bom! parabéns!

Christiane Longa       14/3/2009 13:16:14
Nossa! caiu como uma luva pra mim... rs

 
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