Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene
No último andar de um dos maiores edifícios do maior centro comercial do País, alguns homens estão reunidos, discutindo o fechamento de um grande negócio. Um deles manipula o controle remoto para pausar o vídeo de apresentação e tecer seus comentários.
– Como podem ver, é o futuro do anúncio. O futuro chegou! Os anúncios nunca mais serão os mesmos depois desta nova tecnologia.
Ele representava uma gigantesca indústria da eletrônica que tinha desenvolvido o Superzoom. O recurso permitiria às câmeras de TV revelarem detalhes mínimos de qualquer objeto ou pessoa filmada, e a distâncias fabulosas. No vídeo, transcorria um jogo de futebol e, no momento do arremate para o gol, a nova câmera conseguia acompanhar o movimento do pé do jogador em close, com altíssima definição.
– Vocês já pararam pra pensar? Antes, vendiam espaço nas camisas dos jogadores. Agora, poderão vender espaço para anúncios na ponta de cada chuteira, e é isso que as TVs vão mostrar quando um jogador chutar em gol! Três vezes no replay! Considerando o aumento na audiência, quantas pessoas verão essas marcas? Milhões vezes mil! E o melhor: ocupando espaços mínimos.
Os olhos de dois senhores brilharam. Um era representante dos clubes de futebol. O outro, diretor-presidente da maior empresa de material esportivo com operação nas Américas.
– Existem outras vantagens. Em cada chuteira, será possível vender quatro espaços distintos.
Os demais se entreolharam, sem entender.
– É simples: a ponta, o calcanhar, os lados interno e externo do pé.
Um dos presentes interveio.
– Mas e se o jogador usar muito a parte de fora do pé? Tem esses metidinhos a craque que só querem chutar de trivela... a toda hora, a bola vai tapar a marca do patrocinador. Não pode!
– A gente dá um jeito nisso – falou o representante dos clubes. – Em longo prazo, podemos passar essa instrução nas divisões de base: os treinadores mandarão os moleques usarem apenas a parte interna do pé. Quando chegarem no time profissional, não vai ter essa de tapar a marca do anunciante.
O diretor da empresa de material esportivo concordou:
– É, de qualquer forma, um dos quatro espaços sairia desvalorizado. Que seja o de dentro.
O marketeiro tornou a expor as vantagens da nova tecnologia.
– Agora, pensem nos outros esportes. O golfe, por exemplo. A marca da bolinha só aparecia na jogada final. Com o Superzoom, será ao longo do jogo todo!
– Peraí, também não exagera! Como é que essa câmera vai mostrar a marca da bolinha se, nas tacadas mais longas, ela vai rodando no espaço?
O rapaz não tinha resposta, mas prometeu ajustes no aparelho. Anotou a observação e voltou aos exemplos futebolísticos.
– A federação também vai lucrar com isso – o homem gordo, que dormia na ponta da mesa, acordou; era o presidente da tal federação.
– Opa, como vamos lucrar?
– Vocês começarão a vender espaço nas traves, nas bandeirinhas do escanteio, nos apitos dos árbitros. Até no cartão vermelho e no amarelo.
Ninguém falou nada, mas todos pensaram ao mesmo tempo. O número de cartões iria aumentar a partir do Superzoom.
O presidente da federação estava empolgado. Porém, outra questão surgiu:
– Mas e se a bola bater muitas vezes na trave? Não vai dar pra ver a marca de quem anunciar ali.
– É, quanto a isso, não podemos fazer muito – disse o representante dos clubes.
Silêncio na sala. Agora eles maldiziam a bola.
Até que um deles pediu ajuda à secretaria.
– Dona Carolina, encontre o telefone daquele moço, o Joseph Blatter, presidente da Fifa. Vamos ver se a gente negocia uma mudança.
A bola não devia ser tão necessária...
Ricardo Benevides
Luana Villaça 6/3/2009 17:07:00
Incrívellll!!! Maravilhoso!!! E muito bem empregada a palavra "marketeiro"!!
Bjs enormes
Orgulho de ter em você não mais apenas um professor, mais agora também meu orientador e um valioso amigo! Sou sua fã!
Gabriela Sharp 2/3/2009 10:31:18
Caramba...assustador! Hehehe....
Como sempre, brilhante texto!
bj
Gabi Sharp