Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene
Primeiro dia na universidade, e tudo ao redor faz os olhos do calouro brilharem. O movimento dos alunos, as faixas espalhadas por todo lugar, o coro dos veteranos, tudo enfim. É como se ele conseguisse experimentar os futuros quatro, cinco anos em cada pequeno acontecimento de um dia.
Antes de chegar ao hall dos elevadores, o calouro encontra um sujeito sentado, junto ao guichê de informações. Na dúvida sobre qual direção tomar, ele resolve perguntar ao indivíduo em vez de ir até o guichê – se ele fosse esperto, não seria calouro.
– Boa tarde, senhor. Sabe onde fica o curso de engenharia?
Olhar perdido no horizonte, o homem resmunga uma sucessão interminável de palavras incompreensíveis. No meio delas, algo que o calouro consegue compreender:
– Digito trabalhos acadêmicos. Um real por lauda. Falar com Rose no telefone 7172-0991. Digito trabalhos acadêmicos. Um real por lauda. Falar com...
– Não, o senhor não me entendeu. Estou procurando a secretaria do curso de engenharia.
Barba enorme, camisa furada e cheirando muito mal, o homem continuou com sua conversa sem sentido:
– Terefantasy. A maior festa à fantasia da serra. Cerveja, gummy e caipifruta a noite toda. Mesa de frios. Pacotes promocionais! Ligue para ArteTur ou entre no site www.artetur.net.
– O senhor é maluco? Eu só quero saber do curso de engenharia...
– Sexto Congresso de Entomologia. De 25 a 30 de maio. Auditório 11. Palestra de abertura, Doutor Herman Klismann – persistiu falando sobre outros assuntos.
Sem entender nada, o calouro fez o que deveria ter feito desde o início. Ao chegar no guichê, obteve a informação de que precisava. Na saída, não resistiu e perguntou pelo desvairado.
– Ah, o Souza... Ele passa os dias ali, sentado. É maluco mesmo, mas não é raivoso. Uns dizem que ele ficou assim de tanto estudar. Outros dizem que já nasceu meio ‘lelé da cuca’. A melhor teoria dá conta de que ele era faxineiro aqui da universidade e de tanto ler cartazes, receber panfletos, ler faixas e outras bandeirolas divulgando eventos, foi ficando maluco. Acabou decorando os dizeres de várias.
O calouro ficou com pena, mas seguiu seu caminho. Ao passar perto do Souza, dirigiu-lhe um olhar triste. Ao entrar nos elevadores, ouviu:
– A luta continua, companheiros. Dirceu para presidente do DCE!!!
Ricardo Benevides
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Gabriela Sharp 12/3/2009 11:15:26
Adorei...imagina isso lá na Faculdade?..hehe..Ia fazer sucesso! Beijo meu querido!