Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene
– Você não sabe o que estão falando lá na oficina.
O outro duende balançou a cabeça, negativamente.
– Parece que estão preparando uma barca, quer dizer, um trenó.
– Demissão? Não pode. Jura?
– Tão dizendo. Coisa de 25%. É a crise, parceiro. Você sabe, os juros, as incertezas, o dólar. Aí sobra pra gente.
– Putz, justo agora que eu ia completar 170 anos de casa?!
– Nem deu tempo de se adaptar, né? Mas não grila, não: parece que o RH vai tentar ajudar na recolocação. Lembra do Simon? Arrumou uma como anão de jardim. E o Vito tem feito pontas em filmes, lá em Hollywood.
O interlocutor agora mantinha expressão preocupada.
– É isso que a gente ganha por se dedicar tanto ao trabalho. Todo esse tempo ouvindo que é preciso vestir a camisa, vestir o gorrinho etc. Pois sim...
Os dois continuaram embrulhando presentes, em silêncio. Até aparecer a dúvida:
– Será que o chefe sabe disso? Ele aprovou? Que canalha!
– Ô, ser mitológico ignorante! O chefe não manda em nada. Ele é uma espécie de presidente de honra, só pra manter a fachada e a tradição. Ele é a cara da empresa, entende? Já até tentaram tirá-lo, mas não tem jeito. O público não deixa. Agora, na hora de contratar, demitir ou dirigir a organização, ele não apita nada. Está mais para garoto-propaganda, sacou? Tem gente por trás, tocando o negócio.
– É verdade, ele está no cargo há um tempão. E as coisas nunca mudam. Às vezes, me pergunto como é que isso aqui se paga.
– Ah, rapaz, eu já desisti de pensar sobre o assunto. Já ouvi tanta história a respeito. Primeiro, achei que o investimento era de um fundo internacional. Depois, ouvi uma conversa sobre ONGs, coisa muito estranha. A versão mais provável é lavagem de dinheiro. Parece que tem um russo envolvido, mas não posso afirmar.
A esteira parou. Os dois xingaram a máquina, criticaram a infra-estrutura e concluíram que aquilo só dava certo por conta da falta de concorrência. Quando voltou a funcionar, a conversa ficou mais amena. Eles comentaram sobre a festa de fim de ano, as férias coletivas, o volume recorde de neve.
No fim do expediente, quando batiam o ponto, os dois voltaram à carga:
– Ficou sabendo do que rolou no SAC (Serviço de Atendimento a Crianças), semana passada?
– Não, o quê? Conta aí.
– Soube que umas renas fizeram serão. À noite, elas barbarizaram! Foi uma pouca vergonha. Tá todo mundo comentando.
– Meu São Nicolau! Como você soube disso?
– Ah, não posso contar. Você sabe, nós, duendes, somos muito discretos e não gostamos de intriga.
Ricardo Benevides