Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene
– Desculpe, cavalheiro, mas é aqui a reunião dos pais orgulhosos anônimos?
– Não, senhor. Se fosse, a sigla na porta seria P.O.A e não O.P.A.
O homem olhou de relance o letreiro, coçou a cabeça e tentou imaginar que reunião teria início naquela sala. Afinal, que grupo de ajuda mútua seria aquele?
Antes que pudesse perguntar, o rapaz com quem conversara havia tomado a direção das cadeiras, aguardando as primeiras palavras do coordenador do grupo.
– Boa-noite a todos. Vamos dar início a mais uma reunião dos O.P.A. Eu convido Rafael para começar os depoimentos.
As pessoas aplaudiram e murmuraram “opa, opa, opa, opa”, no ritmo das palmas.
– Oi, meu nome é Rafael.
Todos responderam ao mesmo tempo: – Oi, Rafael.
– Eu sou órfão de produto há mais ou menos 15 anos. A última vez que encontrei balas Dulcora à venda foi num cinema da praça Saens Peña. Hoje, eles já não existem, nem as balas nem os cinemas da praça. Mas eu me lembro do barulho do plástico, aquele plástico que embrulhava as balas, uma a uma. Lembro-me do prazer que sentia quando os retirava e as balas coloridas apareciam com aquela textura levemente transparente. E o sabor?! Hum, quantas vezes acordei no meio da noite pensando que havia encontrado uma última caixa de Dulcora, o Elo perdido, o Santo Graal dos freqüentadores dos cinemas.
O rapaz se estendeu, tentou explicar sua obsessão (como se fosse possível) falando das outras balas que foram criadas depois, mas com qualidade indiscutivelmente inferior à das tais balas. No fim, agradeceu. O grupo respondeu em coro:
– Obrigado, Rafael.
Depois, foi uma moça. Ela mantinha uma expressão bem tranqüila, até começar seu relato e o choro vir em doses cavalares. Falava de um gel que não existe mais, um produto desses que, além de tirar o volume do cabelo, ainda coloria com uns brilhos.
– New Wave! O New Wave nunca vai ser su-su-superado...
Entre soluços, o ponto de vista da mocinha era bem claro: depois que acabaram com o tal gel, o cabelo dela nunca foi o mesmo. E, para mostrar isso, ela chacoalhava a cabeça, puxava mechas com as pontas dos dedos. Metade do que dizia era incompreensível – o choro atrapalhava a comunicação.
E então se deu uma sucessão de depoimentos do baú. Só velharia. Teve gente com saudade de novelas, filmes, personagens – Rintintim e Lassie, Flipper e Garibaldo –, doces que desapareceram, marcas extintas.
O homem que entrara por engano na sala se levantou para ir embora, bem no momento em que o grupo fazia “opa, opa, opa” para o início de mais um relato. Desta vez, um sujeito de capacete e óculos de motoqueiro – ele era órfão da série de televisão Chips, com Larry Wilcox e Eric Estrada. Antes que começasse, o coordenador do grupo chamou pelo indivíduo que tomava a direção da porta.
– Ei, senhor, já vou convocá-lo a falar. É novo no grupo, não? É órfão do quê? Não vá embora sem revelar o que atormenta seu coração.
– Desculpem, amigos, mas entrei aqui por engano. Sabem, eu procurava um grupo de pais orgulhosos para tentar falar de meu comportamento superprotetor. Tenho tanto orgulho da minha filha... e, ao mesmo tempo, morro de preocupação com ela, com a saúde dela, com os riscos que ela pode correr. Mas, admito, eu preciso de ajuda porque exagero. Contratei motorista, segurança e médico 24 horas pra ela. Eu sei, é demais, mas não consigo me controlar.
Alguns participantes se solidarizaram com ele. Outros torceram o nariz para a mudança de tema – ele que fosse procurar o grupo dos pais malucos, ora! Mas ele continuou:
– Já fiz loucuras por ela. Imaginem que eu trabalhava numa multinacional do ramo de alimentos, quando descobri que minha filha estava ficando viciada num caramelo que nós produzíamos. Pois, por causa dela, eu tirei ele do mercado. Vocês acreditam nisso?
Fez-se um silêncio. Quatro pessoas então se levantaram, uma trancou a porta da sala, e o “pai orgulhoso” chegou a duas conclusões:
1) em certas situações, é bom medir as palavras;
2) o amor das pessoas pelos caramelos pode gerar comportamentos nada amistosos.
Ricardo Benevides
Mais em Nós:
Dos serviços difíceis de encontrar
Afinal, alguém acha que eu sou importante
Caixa eletrônico
PATRÍCIA MELLO 2/2/2009 11:30:59
Um máximo!!! Excelente!
Beijos, Patrícia Mello
Gabriela Sharp 8/12/2008 23:00:45
Querido Benevides,
Vc como sempre se superando!!!!
Adorei o texto!
bjinho
gabi
gilson caroni filho 8/12/2008 19:50:32
Benevides, simplesmente genial. Parabéns!
Um grande abraço.