Crônicas sobre um mundo midiatizado em exagero. Não adianta fugir, fechar os olhos ou tapar os ouvidos. O mundo inventa novos meios de atingir você em cheio. Não há jeito, vivemos cercados por mensagens a torto e a direito. O que lhe resta, leitor? A alienação, o devaneio? Prefira a reflexão. E o humor! A coluna é escrita por Ricardo Benevides, mestre em literatura brasileira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá. Twitter @rbene
Não bastasse o calor, o engarrafamento, a bronca que levara do chefe horas atrás, o Freitas ainda conseguia aumentar sua irritação ao lembrar sem parar da voz aguda de sua mulher dizendo que ele é um inútil, que ele não presta atenção nela e repetindo a ladainha do sofá: “Você, seu imprestável, nem para arrumar uma empresa decente para lavar nosso sofá. Minha mãe tinha razão! Você é um derrotado!”
O Freitas pensava se todo derrotado tinha sofá sujo, e se todo cara bem-sucedido mantinha uma boa empresa de lavagem a seco prestando serviço em casa para que os sofás permanecessem limpíssimos.
A aporrinhação diária era sobre qualquer coisa, embora o sofá fosse o mais citado, o tema recorrente, a comprovação da incompetência. Como é que um sujeito com terceiro grau completo, fluente em espanhol e exercendo cargo de confiança na repartição, não era capaz de encontrar uma única firma de lavagem a seco? Olhava no catálogo e nada. Procurava na internet... Patavina! Quando achava um telefone, ligava e ninguém atendia. Fiasco completo.
A existência de Deus se tornou mais evidente quando, a um só tempo, o engarrafamento pareceu se dissipar e soprou uma brisa dentro do carro, amenizando o calor e – atenção para o fato! – um ônibus passou, exibindo no vidro traseiro o cartaz: LAVAGEM A SECO. A MELHOR DA TAQUARA.
Inacreditável, mas era seu bairro que compunha o anúncio. Sem pestanejar, o Freitas foi atrás do ônibus, tentando anotar o telefone, obter mais informações. Porém, quando chegava mais perto, outros carros se interpunham no caminho. Ele forçava a vista, mas não havia jeito de ler aqueles números – também quem foi o gênio que criou um busdoor com letras tão miúdas?
Viu o ônibus se distanciar ainda mais quando o sinal fechou para ele e o guarda se fez notar à direita. Àquela altura, ele avançaria sem culpa por uma causa maior. Mas, temendo a multa, assistiu conformado à partida do coletivo.
Sinal verde. Outro ônibus, de outra linha, cruzou o sinal na frente dele. Freitas ia xingar antes de reparar que também trazia o anúncio desejado. Ligou a seta e tomou aquele rumo, acelerando o carro o máximo que pôde. O ônibus vinha desembestado, em altíssima velocidade. Mas dessa vez o Freitas não iria se deixar vencer. Pisou fundo, ziguezagueou entre os automóveis, deixando para trás os mais lentos, superando os mais rápidos. Nem assim conseguia chegar perto o bastante para ler o tal anúncio.
Após uma perseguição implacável, que durou alguns poucos minutos, Freitas viu o coletivo cruzar o sinal amarelo, fazendo a curva à esquerda. Desesperado, ele cravou o pé no acelerador, ultrapassando o sinal já no vermelho. O carro se desgovernou, derrapando de lado até bater num poste, causando estrondo, destruindo a lateral direita, onde felizmente não havia ninguém no carona.
Em estado de choque, Freitas ergueu a cabeça e lamentou estar vivo. Apiedou-se de si mesmo, quando refez todo o esforço para conseguir algo tão simples como o telefone de uma empresa de prestação de serviços. Então, sua mulher tinha razão: ele era um inútil.
Saiu do carro para ter a noção mais exata do estrago e da própria desgraça. Foi quando reparou que atrás do poste havia um letreiro que indicava: “Telma e Selma Lavagem a Seco. Lavamos sofás, poltronas e estofados de todo tipo. Atendemos em domicílio.” Completavam as informações, telefones e outros contatos.
Radiante e incrédulo, ao mesmo tempo, Freitas ergueu os braços como quem comemora um gol:
– Mas este é, definitivamente, meu dia de sorte!
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