Cristina Souto. Colaborou Isabela Assis
O prêmio José Reis de Divulgação Científica, o mais importante da área no Brasil, este ano, foi concedido à jornalista Alicia Ivanissevich, que há 23 anos tem se dedicado a traduzir a ciência para o grande público. Desde 1997, Alicia é editora da revista ‘Ciência Hoje’, publicação mensal do Instituto Ciência Hoje, vinculado à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
Em entrevista ao portal Nós da Comunicação, Alicia fala sobre a responsabilidade do profissional de comunicação que atua na área de saúde, sobre o risco das informações médicas que navegam na internet e sobre a relação entre fontes e jornalistas. “Quando o pesquisador tem um bom encontro com o jornalista e este sabe interpretar sua ‘peça musical’, é claro que vai resultar em uma ‘orquestra afinada’”. Assista também a entrevista em vídeo na seção Multimídia.
Nós da Comunicação – Qual é a missão do jornalista na área da saúde? Essa comunicação é eficiente hoje?
Alicia Ivanissevich – A missão do jornalista, em qualquer área, é informar, e informar bem. Na área de saúde, especificamente, temos a missão extra de tranqüilizar a população e, ao mesmo tempo, alertar sobre riscos, informar sobre determinadas doenças desconhecidas. Atuei durante cinco anos no ‘Jornal do Brasil’, na área de saúde, e posso dizer que funcionávamos como um consultório. As pessoas ligavam pedindo o telefone do médico que tínhamos entrevistado. É preciso ter um cuidado muito grande, porque há uma responsabilidade enorme envolvida em nosso trabalho, e dar uma informação errada é muito perigoso. São perigosas, por exemplo, reportagens que anunciam a cura do câncer. Nós trabalhamos com os sonhos das pessoas e não apenas com a saúde física, mas com a mental. Então, a responsabilidade é realmente dobrada.
Nós da Comunicação – Como você avalia a formação dos profissionais de comunicação que atuam na área hoje? Quais são seus desafios?
A. I. – Há bons profissionais trabalhando na área. A partir do momento em que foram criados meios de divulgação mais eficientes, houve espaço para eles. Quando o mercado se torna mais exigente, requer pessoas melhores. É claro que da mesma forma que existe o bom médico e o mau médico, existe também o bom jornalista e o mau jornalista. A formação, sobretudo na prática, tem exigido um aperfeiçoamento, uma maior especialização.
Nós da Comunicação – Como é o relacionamento, hoje, entre as fontes e a imprensa especializada? Ainda existe muito preconceito dos pesquisadores e dos especialistas da área com relação ao jornalista?
A. I. – Eu acho que algumas fontes ainda são reticentes, ainda pensam duas vezes durante uma entrevista. É comum ouvirmos frases do tipo: ‘Ai, meu Deus, mudaram tudo! Eu não disse nada disso.’ Isso sempre vai existir porque somos intérpretes; não estamos criando uma ‘peça musical’. Então, como disse antes, existem bons intérpretes. E quando o pesquisador tem um bom encontro com o jornalista e este sabe interpretar a sua ‘peça musical’, é claro que resulta em uma ‘orquestra afinada’. Acho que essa relação tem melhorado. Hoje, você vê boas matérias escritas por bons profissionais, e isso tem levado a comunidade científica e os pesquisadores da área de saúde a ficarem menos fechados e a confiarem um pouco mais. Alguns veículos até oferecem a possibilidade de que o texto seja lido antes de ser publicado. Mas, independentemente disso, a confiança mútua melhorou. O relacionamento entre fontes e jornalistas é como uma ponte que está em construção por décadas, ainda inacabada. Mas, felizmente, já se pode passar de um lado a outro de forma segura, embora ainda haja muito a ser feito.
Nós da Comunicação – Antigamente, havia editorias pequenas em grandes jornais. Como você avalia o conteúdo a ser divulgado, hoje, e a forma com que as informações estão sendo passadas para a população? Mudou muita coisa ao longo da sua trajetória?
A. I. – Não sei se mudou muita coisa. De fato, o espaço cresceu nos principais jornais e telejornais. O ‘Jornal Nacional’, por exemplo, apresenta quase todo dia uma matéria de ciência e saúde. Isso significa que o público quer saber sobre o tema, existe uma demanda. O espaço aumentou, não apenas nas editorias de ciência de jornais e revistas, mas na televisão e em outros meios. Na verdade, não sei se mudou muito, porque antigamente também havia ótimos profissionais. O ‘Jornal do Brasil’ já teve colunistas especializados, como médicos. Então, existe uma tradição também nessa área. Claro que, hoje, tudo é mais intenso, mais ágil. Mas a qualidade foi mantida.
Nós da Comunicação – Com o crescente acesso à internet, como você avalia a divulgação de informações médicas no meio digital? Há uma preocupação sobre como difundir determinadas informações? Quais os principais desafios dos profissionais que atuam nesse meio hoje?
A. I. – Vou falar primeiramente do ponto de vista do internauta que está buscando informações sobre saúde. Acho que é preciso procurar fontes fidedignas: sites seguros e confiáveis, de uma academia de medicina, por exemplo. Quando uma pessoa está doente, hoje, vai imediatamente procurar na internet uma resposta para sua dúvida: ‘o quê é isso que eu tenho, com esse nome estranho?’. Hoje em dia, isso é inevitável. Mas, na rede, navegam informações de todos os tipos. Então, você encontra informação de qualidade, mas também de péssima qualidade, que pode até agravar seu estado de saúde porque pode levar você a tomar medidas que não são corretas. Já do ponto de vista dos jornalistas que trabalham na área, acho que a responsabilidade é nossa. Nós também temos que procurar fontes boas, bons profissionais da área de saúde. E existem critérios para descobrirmos quem é bom, como o currículo lattes. Precisamos saber com quem estamos falando.
UM MERCADO ESPECIALIZADO PARA JORNALISTAS
Nós da Comunicação – Hoje, a área oferece muitas oportunidades para o jornalista, uma vez que existem assessorias de imprensa especializadas em saúde. O que é necessário para ser um bom profissional do setor?
A. I. – Não sei dizer como está o mercado hoje. Com certeza, aumentou muito o espaço por causa da internet, assim como cresceu o número de profissionais. Entretanto, não sei como está a relação entre procura e oferta. O que posso dizer é que o profissional que gosta da área e quer trabalhar nela deve se dedicar muito, ter uma visão muito clara do que quer. Para bons profissionais, sempre existem vagas. Eu sempre digo a meus estagiários: ‘Se você quer realmente fazer isso, realmente se dedique a isso e seja bom no que escolheu’. Claro que também existe o fator sorte, e não podemos deixar de contar com ele, mas trabalho e dedicação são os principais investimentos.
Nós da Comunicação – O projeto Ciência Hoje oferece oportunidades para os estagiários conhecerem um pouco do jornalismo científico, aprenderem um pouco sobre sua linguagem. Como funciona o programa de estágio de vocês?
A. I. – A Ciência Hoje On-Line é a nossa página virtual, atualizada todos os dias com notícias sobre a ciência no Brasil e no mundo. Então, a demanda por estagiários é maior na página virtual, em função das atualizações diárias. O Instituto Ciência Hoje desenvolve um programa de formação profissional desde 1998. Naquela época, começamos com dois estagiários, e esse número foi aumentando progressivamente. De lá para cá, acredito que formamos cerca de 50 pessoas. Não sei se todas elas estão trabalhando, mas boa parte ainda atua na área científica. Uma das funções do Instituto é oferecer espaço para os estudantes aprenderem a lidar com a comunidade científica e a se posicionar na hora de entrevistar as fontes, elaborando textos de qualidade. Acho que é uma missão bacana. Faz parte do objetivo da ciência formar esses recursos humanos.
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