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Entrevistas

8/7/2010

GESTÃO

Rafael Liporace: 'a pluralidade é a grande fórmula do sucesso'

Sânia Motta e Maíra Gonçalves

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Rafael Liporace, sócio e diretor geral da Biruta Mídias Mirabolantes

“Entrei na faculdade como um jogador de futebol de salão e saí um empresário.” É assim que Rafael Liporace, sócio e diretor geral da Biruta Mídias Mirabolantes e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-RJ), resume sua história. Aos 29 anos, Rafael já construiu uma trajetória profissional digna de grandes executivos. “Entrei na universidade para estudar durante um ano apenas, pois começaria a jogar futebol de salão fora do Brasil. Mas, durante esse tempo, percebi que realmente gostava de comunicação e que o mundo esportivo era muito imprevisível. Comecei, então, a me dedicar mais aos estudos e ingressei na empresa júnior da faculdade. Junto com outros estudantes, criei uma equipe e trabalhamos muito para fazer daquela empresa a nossa empresa. Com esse esforço, entregamos à ESPM um dos melhores, senão o melhor, resultado da júnior até hoje”, conta.

Pouco depois, quando cursava o sétimo período, Rafael aceitou o convite de um professor para substituí-lo em uma empresa, em um cargo de liderança. Na mesma época, uma pesquisa do Jornal do Commercio apontou o jovem empresário como um dos grandes profissionais da primeira década de 2000. “Estava gostando da progressão da minha carreira, mas dois itens não me agradavam: a exigência do domínio da língua inglesa – pois para ser executivo, é fundamental o conhecimento do idioma – e o fato de não querer ser rotulado com uma matrícula, o número 23 do marketing, por exemplo”, explica. Foi nesse momento que Rafael foi apresentado, por um amigo, a um de seus sócios, Alan James. Em seguida, vieram Matheus Meirelles e Romulo Groisman, completando o time. “Eram quatro jovens acreditando que poderia dar certo, abrindo mão de uma carreira promissora para se tornarem empreendedores. Mas desde o início pensávamos que, se fosse para empreender, seria com base em nossas premissas de liderança. Foi assim que, em 2003, surgiu a Biruta Mídias Mirabolantes. Hoje, sete anos depois, temos uma média de 60 colaboradores e estamos presentes em três cidades do Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo e Fortaleza”, relata.

Além de toda a experiência adquirida na prática, Rafael credita parte de seu sucesso profissional ao aprendizado na universidade. “Se não fosse a educação técnica que tive, poderia não ter o conhecimento necessário para seguir o caminho certo. O estudo faz muita falta, não só para quem não tem acesso a ele, mas para quem não o leva a sério, não entende sua importância. Infelizmente, e agora falo como professor, as pessoas ainda não têm essa clareza. O jovem acha que vai aprender apenas na prática, não entende que faculdade não é somente um diploma”, diz.
 

Gestão baseada na confiança

Gerindo uma companhia com cerca de 70% do capital humano formado por colaboradores de até 25 anos que estão na primeira ou, no máximo, na segunda experiência profissional, Rafael diz que a pergunta que mais ouve é: como você consegue liderar tantos jovens? “Respondo que procuramos mostrar para toda a equipe que nós também trabalhamos. Sou o primeiro a chegar, procuro ser um dos últimos a sair, não venho aqui por hobby. E sempre que chego, falo com todo mundo e mostro para eles o valor de cada um aqui na empresa.”

De acordo com Rafael, implantar uma política de gestão horizontalizada é fundamental para manter um bom relacionamento entre líderes e liderados. “Isso é muito legal aqui na Biruta. Consideramos que todos são igualmente importantes”, afirma. E acrescenta: “Se hoje sou um bom líder, não é apenas por eu ter capacidade de liderar, mas porque tenho uma equipe que me ajuda a organizar e a cuidar de tudo.”

Para ele, essa integração só acontece porque, como um bom líder, procura passar confiança e inspirar seus colaboradores. Exemplo disso foi a superação de uma crise na Biruta. “Passamos por uma difícil situação e fizemos um acordo com nossos profissionais: ficaríamos seis meses sem dispensar ninguém nem reduzir as despesas, mas teríamos de trabalhar muito e nos dedicar ainda mais para virar o jogo. Se em seis meses nada mudasse, eu fecharia as portas, pois não iria mandar metade do pessoal embora. Em quatro meses conseguimos recuperar o negócio. E sabe por que deu certo? Porque temos confiança uns nos outros”, ressalta. Ele diz ainda que é fundamental dar o exemplo: “Precisa de alguém para produzir? Eu vou. A empresa necessita de recursos financeiros? Coloco do meu bolso. Precisa que eu atenda telefone? Eu atendo. Isso faz muita diferença, pelo menos aqui, na minha realidade”, observa.

Com o negócio bem estruturado e uma equipe consolidada e comprometida, Rafael conta que já consegue dedicar metade de seu tempo para refletir sobre o futuro. “Penso muito na melhoria da gestão e no ambiente de trabalho. E nesse aspecto também conto com a colaboração de todos. Uma vez por mês, fazemos uma reunião com grupos interdisciplinares, compostos por, no máximo, duas pessoas de cada área, para ouvir o que eles têm a dizer e sugerir”, destaca.
 

Pluralidade Biruta

O mix das gerações X, Y e baby boomers, segundo Rafael, também agrega valor a uma empresa, uma vez que reúne diferentes experiências, habilidades e ideias. “Acredito que a pluralidade é a grande fórmula do sucesso. Na Biruta, contamos com o apoio do Carlos Henrique Sampaio, gerente de Controle e nosso xerife de 45 anos. Digo para todo mundo que o que ele já viveu, eu não posso comprar. É a experiência que ele adquiriu”, aponta Rafael, que completa: “Aqui nós temos profissionais de várias idades e acho que é esse misto que faz a diferença. Achar que apenas os jovens podem dar certo não é bom.”

Paralelamente à bagagem cultural, Rafael reconhece a importância da tecnologia. “Se você disser que sua vida não é facilitada por um blackberry é mentira. Hoje em dia, se a internet da empresa cai, é como se tivesse acabado a água ou a luz da sua casa. É claro que precisamos da tecnologia, mas sem nos tornarmos seus reféns, afinal ela existe para facilitar nossos hábitos e não para moldá-los”, enfatiza. Mas surpreende ao falar das redes sociais: “Não acho que seja importante para um líder estar conectado a todas as mídias. Para mim, são meios frios. Eu, por exemplo, não tenho blog, Orkut nem Twitter e não sinto falta deles. Prefiro o relacionamento direto, chegar de manhã e dar bom dia a cada um de meus funcionários, pessoalmente. Pode ser que, quando eu tiver mil colaboradores e 15 filiais, eu precise me tornar um ‘ser digital’, mas essa ainda não é minha realidade”, detalha.

O empresário acrescenta que as ferramentas digitais têm contribuído para que se confunda ainda mais a vida pessoal com a profissional, que estão cada vez mais próximas. “Isso acontece não apenas com os gestores, mas com todo mundo. A grande questão é você saber diferenciar uma da outra e buscar o equilíbrio. Por isso, é preciso ter muito cuidado para que sua vida pessoal não se torne um espetáculo profissional nem sua vida profissional se torne um  espetáculo pessoal”, lembra.
 

Uma fórmula simples para o futuro

Por tudo isso, Rafael acredita que seja fundamental entender como a tecnologia vai evoluir. Porém, enfatiza que mais importante ainda é não esperar por essa evolução para tomar suas decisões. “Você não pode simplesmente ser um barco à deriva e seguir para onde a onda te levar. É preciso ter um norte, uma direção. E se posicionar. Hoje, nos reconhecemos como uma empresa de inovação. Essa é a nossa essência”, reforça. E alerta: “A organização que não se descobrir precisará ter cuidado para não morrer. O mesmo serve para as companhias que não se preocupam com seus funcionários. Essas, eu digo que são ‘burras’ porque, mesmo com toda a tecnologia, cada vez mais as pessoas serão essenciais.”

Para Rafael, o líder da década de 2020 terá de se adaptar ao mesmo contexto. “Esse é o principal exercício que faço. O líder que daqui a dez anos conseguir ser mais simples do que é hoje – e menos refém da tecnologia – vai ser o verdadeiro líder, mesmo nas grandes organizações”, finaliza.
 

Essa entrevista é integrante de uma reportagem da próxima revista Comunicação 360° que vai abordar o tema Comunicação em 2020.


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