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Entrevistas

12/1/2010

GESTÃO

Bernadete Almeida: 'ter inteligência emocional é requisito para o jovem'

Mariana Gouvêa e Natália Calandrini

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Bernadete Almeida, consultora e coordenadora da ESPM Social

A consultora Bernadete Almeida, articulista e coordenadora do Segmento Social da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) do Rio de Janeiro tem conhecimento de causa para definir o perfil do novo profissional de Comunicação e o que o mundo corporativo espera dele. Bernadete convive com esses jovens nas salas de aula e pôde observá-los in company, durante os 16 anos que trabalhou na Vale, pela qual atuou como gestora de Comunicação. Para ela, saber interpretar cenários, aprender a ouvir e ter maturidade emocional são algumas das habilidades que eles precisam desenvolver.

Confira suas reflexões na entrevista a seguir, que faz parte da edição 13 da revista Comunicação 360º.

Nós da Comunicação – O que as empresas exigem hoje, na hora de contratar um jovem profissional de Comunicação? Que habilidades ele deve ter?
Bernadete Almeida –
Um primeiro requisito – que se aplica a qualquer perfil de profissional, mas que para a Comunicação é ainda mais importante – é ter inteligência emocional. Isso significa a capacidade de ler cenários, estar e se colocar de maneira adequada, criando conexões entre as pessoas. Obviamente, quem escolhe fazer Comunicação é alguém que gosta de se comunicar, é falante, dinâmico. Mas essas características não são suficientes para definir um bom comunicador. Ele, hoje, deve saber ouvir. Deve ser uma pessoa que não só saiba se expressar – verbalmente, por escrito, em uma apresentação de power-point –, mas que também saiba entender o contexto em que a comunicação se dá. E isso está em falta no mercado. O que gera efetividade na Comunicação é justamente a capacidade de perceber e entender o cenário, o contexto, a cultura da organização.

Nós da Comunicação – Como um jovem de 20 e poucos anos pode estar desenvolvido a esse ponto?
B. A. –
É aqui que entra em cena a inteligência emocional. Estamos vivendo um momento em que ela é fundamental. O jovem profissional precisa entrar na empresa sabendo que nada sabe. Entendendo que pode até saber tudo de uma ferramenta, mas que ela não valerá de nada se não estiver ancorada em um contexto. E se ele não conhece o contexto, tem de passar a calibrar seus ouvidos, seus sentidos, sua capacidade de ler cenários. Dou aula para jovens de 20 e poucos anos e percebo que estamos diante de uma geração extremamente bem informada, mas com pouca aptidão para estabelecer relações de causa e efeito entre as informações. É a geração do ‘recorta-cola’. Não quero demonizar o Google – é uma ferramenta maravilhosa –, mas ele trouxe isso.

Nós da Comunicação – Alguns especialistas avaliam que as universidades não chegam a preparar os jovens para que eles amadureçam profissionalmente. Você concorda?
B. A. –
Acredito que as universidades podem, sim, fazer isso – e muitas o fazem. Depende, claro, do professor. Ministro a disciplina Responsabilidade Socioambiental para alunos de 7º período de Administração e percebo que alguns jovens que já trabalham ficam contrariados em terem de assistir à aula na quinta-feira à noite. Então, coloco para eles: ‘Não adianta pensar assim. Entendo que vocês estão querendo ir para o mercado, mas essa disciplina é uma questão de empregabilidade. Se você for atuar como trainee de qualquer grande corporação e fizer cara de interrogação quando falarem de sustentabilidade, você está fora’. A universidade tem a obrigação de preparar esse aluno para o mundo que ele vai encontrar. E isso inclui alertá-lo para erros de português. No primeiro e-mail com erros que esse jovem profissional mandar na empresa onde estiver, vai causar uma péssima impressão. Não adianta aliviar em sala de aula, porque o mercado será cruel com ele.

Nós da Comunicação – Como isso se dá dentro da empresa? Ela tem o papel de preparar o profissional?
B. A. –
O ideal seria que toda empresa, ao admitir um jovem, oferecesse um processo de coaching. Muitas vezes o próprio trainee precisa dessa orientação. Ele é um caso típico: por ter entrado pela porta da frente, passado por um baita funil, já se acha um ‘gênio’. Aí, se não vira gerente de área em dois ou três anos, se frustra. Falta a ele inteligência emocional. Ele terá de aprender a ouvir as pessoas que estão lá há mais tempo – até para propor soluções novas, um novo olhar sobre o que sempre existiu. Trabalho em equipe também é fundamental. E trabalho em equipe é saber ouvir o outro, entender seu ritmo, saber compatibilizar os diferentes ritmos.

Nós da Comunicação – Até onde a empresa pode contribuir para capacitar o profissional?
B. A. –
Por mais que as organizações motivem e ofereçam treinamentos, cada vez mais o recado é o seguinte: ‘Vamos lhe dizer o que esperamos de você; vamos fomentar o que você precisa ter como arcabouço de conhecimento, mas você vai ter de correr atrás de sua qualificação’. Não adianta fazer muxoxo porque a empresa não pagou seu MBA. Aliás, poucas estão pagando. O jeito é correr atrás de sua própria capacitação, não parar de estudar. Ler também é importantíssimo para aprender a fazer conexões, estabelecer relações entre causa e efeito. Só literatura de aeroporto não dá conta; o profissional de Comunicação tem de ler os clássicos. Para escrever bem, é preciso ter passado por um Machado de Assis. É necessário discutir a questão das relações fluidas e, para isso, tem de ler Sennett, Hanna Arendt.

Nós da Comunicação – O que mudou no perfil do jovem profissional em relação a décadas atrás?
B. A. –
Principalmente as relações de trabalho. Os pais do jovem de hoje são de uma geração que ainda tinha a mentalidade de fazer carreira dentro da empresa. A geração de hoje pode fazer home office, ganhar dinheiro com atividades que não exigem que se esteja dentro do escritório. A perspectiva de carreira dele é bem diferente da de tempos atrás: para ele, ficar 10, 15 anos na mesma empresa é tempo demais. E ele pensa “Ok, é legal trabalhar na Vale, ou na Oi, mas, se deixar de ser legal, estou fora”. O nível de fidelidade dele à empresa é menor, até porque as empresas também não estão tão fiéis assim. E digo mais: é o jovem talento que se move, que se arrisca. Assim como as empresas buscam pessoas que tenham o seu perfil, a geração de hoje busca organizações que sejam a sua cara. E essa geração exige, o tempo todo, coerência entre discurso e prática na organização, como se dissesse: ‘Não me venha com essa história de vestir a camisa. Vou vestir se ficar legal em mim, senão estou fora’.

 


COMENTÁRIOS( 1 )





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XXX

Jr Souza       12/1/2010 18:15:55
Totalmente atual, o que ela diz. Adoraria uma aula com alguém tão antenada ao mundo do jovem profissional.

 
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