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Entrevistas

19/11/2009

GESTÃO

Rodolfo Guttilla: 'o profissional de comunicação tem que ser um iluminista'

João Casotti e Christina Lima

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Rodolfo Guttilla, diretor de assuntos corporativos da Natura

Sobre o comunicador moderno recaem a cada dia mais exigências para trafegar em um mundo complexo. Educação e atuação transdisciplinares impõem-se principalmente no ambiente empresarial. Para o jornalista e antropólogo Rodolfo Guttilla, diretor de assuntos corporativos da Natura, um dos principais papéis de quem trabalha no segmento de  comunicação é ser um ‘administrador do simbólico’.

“Hoje, esse profissional é chamado a opinar sobre questões que transcendem o campo da comunicação. Isso quer dizer que ele tem de lidar com repertórios das ciências humanas e de outras disciplinas, ou seja, ele tem de ser um iluminista”, afirma.

Na entrevista a seguir, Guttilla fala sobre como deve se comportar o profissional de comunicação dos dias de hoje.

Nós da Comunicação – Qual o perfil do comunicador moderno?
Rodolfo Guttilla –
O ambiente corporativo é pautado por uma lógica um pouco diferente da encontrada no ambiente acadêmico. O que a gente nota é que o comunicador hoje exerce um papel menos operacional e técnico e mais da administração do simbólico. O que significa isso? Procurar fazer com que toda ação de comunicação seja voltada para o consumidor ou para o formador de opinião e remeta aos valores da marca ou para o que a organização representa. Esse administrador do simbólico pode ser um comunicador da área de relações públicas, um publicitário, um jornalista ou alguém de marketing – até desejável – mas não tem somente esse perfil.

Esse profissional é chamado a opinar sobre questões que transcendem o campo da comunicação. Isso que dizer que ele tem de lidar com repertórios das ciências humanas, muitas vezes das ciências exatas e de outras disciplinas, ou seja, ele é um iluminista. É um profissional que tem essa raiz no Iluminismo onde – no sentido da época – era preciso um saber ‘enciclopédico’. Isso demanda muita curiosidade e disponibilidade para aprender, o que considero a chave para o comunicador moderno.

Nós da Comunicação – As organizações estão conseguindo dar esse espaço, incentivando esse profissional a desenvolver uma visão e uma atuação mais transdisciplinar? 
R.G. –
As empresas de um modo geral ainda estão na transição de um modelo ‘Toyotista’ – voltado para o mundo da produção – para uma sociedade do conhecimento. Durante essa transição, muitos comunicadores ainda são considerados uma correia de transmissão, parece até aquele cachorrinho da RCA Victor, cujo slogan é “The owners voice” (a voz do dono). Esse comunicador fica encantado com a reprodução.

Outras empresas, por sua vez, já estão olhando para o comunicador como conselheiro para horas boas e más. Hoje, as companhias vivem dilemas para os quais muitos de seus executivos não estão preparados. Por exemplo: qual o limite do crescimento de uma empresa? Ao crescer a empresa gera carbono. Se todos querem um mundo com baixos índices de carbono, qual a mensagem que esse comunicador terá de construir para ajudar a empresa a transmitir seus planos, caso ela tenha essa a intenção de reduzir a emissão de carbono ou para economizar água nos processos de transformação ou para promover inclusão de diferentes setores de sua cadeia produtiva? O comunicador que não souber aconselhar – e só será capaz disso se tiver uma cultura geral – está fadado ao segundo plano e a comunicação terá pouca importância. Algumas empresas ainda não acordaram para esse tipo de realidade.

Nós da Comunicação – A área de Comunicação tem sido valorizada como estratégica nas empresas?
R.G. –
Sim. Muitos profissionais acabam fazendo coisas muito diferentes e extrapolando o campo da comunicação como, por exemplo, relações com governo. Eu cuido de toda a agenda do lobby da Natura e isso significa que sou quem representa a empresa em discussões como competitividade industrial do setor, regionalização da produção, lei de inovação, marco regulatório de acesso ao patrimônio genético, etc. Se eu fosse ‘apenas’ um jornalista, pois sou também formado em jornalismo – eu seria, como todo jornalista, um especialista em generalidades.

Quando entramos nessa dinâmica mais transversal e interdisciplinar você acaba tendo que se especializar em alguns campos do conhecimento que vai ajudar muito a observar como a sociedade enxerga a empresa ou organização e o que você pode dar de respostas verdadeiras, honestas e transparentes porque o mundo não aceita mais o ‘greenwashing’, ‘babação de ovo’ ou ‘comunicação chapa branca’. Enfim, é um bom momento para quem tem idealismo e ideologias. Resgatar o viés ideológico na comunicação é também muito importante porque as empresas são muito planas, iguais e assépticas. Temos, de fato, o papel de desmascarar essa cultura apolínea de sociedade de consumo e instaurar uma administração do simbólico em um ambiente caótico como o que vivemos.

 


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