Christina Lima
Liliane Ferrari é produtora cultural, blogueira profissional de três marcas, formada em jornalismo e filosofia, pós-graduada em história da arte, mãe de uma filhinha, produtora freelancer de TV, professora da Escola São Paulo e editora de seu próprio diário poético-filosófico. Toda essa hiperatividade, refletida em duas dezenas de comunidades virtuais em que está presente, faz da paulistana uma representante típica do nível de conectividade a que uma pessoa pode chegar hoje em dia.
Personagem de capa de uma matéria publicada em abril na revista ‘Veja’ dedicada às relações firmadas on-line, nessa entrevista que fará parte da próxima edição da revista Comunicação 360°, Liliane nos fala sobre a comunicação na web e os vínculos criados por ela. “Às vezes é difícil pensar nessa plataforma como meio de relacionamento, mas a internet humaniza as pessoas porque é possível se comunicar diretamente e de maneira rápida”, afirma.
Confira a íntegra da conversa abaixo:
Nós da Comunicação – O fato de estarmos vivendo na era da internet, com a explosão das mídias sociais, quer dizer que as pessoas estão se comunicando melhor ou apenas mais conectadas?
Liliane Ferrari – Não acho que elas estejam se comunicando melhor, porque quem se comunica mal no mundo real não vai se comunicar bem no virtual. Já as pessoas que se comunicam bem vão continuar e, na verdade, ganharam um novo espaço, ampliando o círculo. Acredito que, de modo geral, pessoas que no trabalho se relacionam bem, dão retorno e têm um conteúdo interessante na vida levam isso para internet. Quem não tem esse conteúdo continuará ali orbitando o espaço de algumas pessoas que produzem bom conteúdo.
Nós da Comunicação – Como você analisa o atual estágio de nossos relacionamentos? Não estamos vivendo uma época de solidão, apesar de tantas conexões?
L .F. – Na internet, aprofundam-se os relacionamentos e amizades conforme sua escolha. Há gente que transita pelas redes, mas me dá a impressão de que, para ela, todas as pessoas são virtuais. Em meu caso, me relaciono muito no mundo virtual pelo Twitter. Uso para divulgar a publicação de um post que escrevi, um curso que vou ministrar, pedir uma informação rápida para o trabalho, e muitas outras coisas. Conforme as respostas vão chegando, você vai conhecendo as pessoas e aprofundando um relacionamento, mesmo que virtual, com algumas delas.
Recentemente, encontrei pessoalmente uma diretora de arte que já conhecia há dois anos pela web. Por conta de nosso relacionamento quase diário, em que estamos sempre sabendo o que a outra está fazendo, vendo fotos etc., quando nos encontramos, na realidade, já nos conhecíamos muito bem. O fato de nos encontrarmos pessoalmente foi, no fim, até um pouco irrelevante. Isso é possível quando as pessoas estão na internet não para representar um personagem, criar perfil fake no Orkut ou algo parecido. Estou falando de gente normal. Nosso encontro, então, não foi assim: ‘Puxa, então é assim que você é!’, porque simplesmente já nos conhecíamos. É uma situação diferente de quando você conhece alguém em um evento ou um pouquinho pela internet. O encontro, nesse caso, pode ser uma surpresa.
Acredito que, para você ter uma boa ideia sobre uma pessoa, você tem de se comunicar bastante com ela. Quem vê minhas fotos no Flickr, lê meu blog e acompanha meu Twitter sabe um pouco como sou. Quando tiver a oportunidade de me conhecer pessoalmente, não vai me achar muito diferente. Penso que as redes sociais fizeram com que a gente pudesse se apresentar a pessoas e conhecê-las de maneira mais ampla.
Nós da Comunicação – Você acha que pessoas que estão muito deslumbradas com as possibilidades de relacionamento nas redes sociais estão disfarçando certa solidão na vida off-line? Algumas não exageram?
L. F. – Vou te falar de um tipo de solidão: quando as pessoas trabalham em casa, elas geralmente trabalham sozinhas. Quando você está no Twitter, é como se um monte de gente estivesse trabalhando com você naquele escritório. São pessoas a quem você recorre a qualquer hora e compartilha momentos, ainda que esteja sozinho. Cerca de 90% dos contatos com quem estou o tempo todo no Twitter ou nos grupos que participo são pessoas que estão ali por questões de trabalho e também por um prazer cultural ao ver uma foto, descobrir uma informação ou ouvir uma música.
Por outro lado, acho que quando os usuários partem para o mobile e ficam superconectadas pelo celular, aí sim, pode ser algo mais perigoso para algumas pessoas. Eu uso muito as redes, mas não acesso via celular. Em casa, já estou ligada o tempo inteiro, sem exagero. Acordo e, antes de tomar café, já abro o computador. Se eu, que uso bastante, fosse usar o mobile também, seria um pouco complicado, porque realmente dá uma vontade danada de acessar e descobrir o que está acontecendo.
Nós da Comunicação – É possível a criação de vínculos importantes entre as pessoas a partir de conexões realizadas pela internet?
L. F. – Sim. Às vezes, é difícil pensar nessa plataforma como meio de relacionamento Precisamos de um tempo para absorver a ideia. Acredito que relacionamentos na internet são iguais aos da vida real. Existe ainda uma visão meio equivocada de que quem passa muito tempo na internet é nerd, não sai de casa e não faz nada. É difícil trabalhar com esse clichê. Vou dar um exemplo: estou conectada o tempo todo, participo de milhões de redes sociais, inclusive o Facebook, onde existe um jogo – o Farmville – que eu não entrei, assim como não consigo entrar em vários outros, porque, no tempo que eu dedico à internet, faço algo para um blog que trabalho ou vendo um vídeo interessante, e não consigo me envolver nessas brincadeiras. Conheço uma pessoa, porém, totalmente off-line, que verifica o e-mail só uma vez ao dia e é vidrada no jogo da fazendinha.
Outro exemplo: ninguém vai a uma festa sozinho e, ao ver outras pessoas na pista, diz: ‘Oi, sou a Lili, posso ser sua amiga?’. E é justamente o que as pessoas fazem nas redes sociais. Na vida real, você tem de ter um assunto para falar com os outros. Se você não gosta de ficar se comunicando com todo mundo, não há obrigação de amar ter um blog. Acredito que o comportamento da pessoa passa automaticamente para internet. Pessoas que são grossas, mal-educadas, são assim dentro e fora da web. As que emolduram as mensagens com florzinhas e coraçõezinhos quando escrevem é porque são fofinhas assim fora da internet.
Nós da Comunicação – As empresas sabem criar corretamente vínculos sustentáveis com seus públicos?
L. F. – As empresas estão no primeiro passo e já perceberam a diferença entre website e blog. Todas querem um blog agora, mas usá-lo propriamente é outra história. Elas têm de entender que terão de lidar com comentários negativos, que terão de responder às reclamações, pois foi aberto um canal de comunicação. Outra diferença é que não dá mais para enviar uma resposta ‘pessoa jurídica’ no estilo ‘a empresa X agradece seu contato’. Tem de ser mais normal. Os blogs já existem há muito tempo, mas agora as empresas os valorizam. Todas querem blog.
Nós da Comunicação – Em qual estágio se encontra a academia em meio a esse processo constante de transformação? Você acredita que as escolas estejam atrasadas ou em um natural estágio de transição?
L. F. – Depende muito do professor e do contato que ele tem com a internet, com blogs e redes sociais, e também se está dentro de uma instituição que fornece boa estrutura para ele se desenvolver. Não acho que as escolas estejam muito preparadas. Há pouco tempo, escrevi sobre escolas no Uruguai que estavam distribuindo computadores infantis no primário. Achei a iniciativa genial. Em meu blog voltado para mães, percebo a preocupação de muitas em não expor os filhos à tecnologia desde cedo. Ouço que o computador vai roubar a infância das crianças. Respondo que quem vai controlar o tempo de brincar no computador são os pais. Se você tem contato com uma ferramenta desde pequeno, a dominará quando ficar mais velho. Minha filha tem três anos e meio e mexe no computador; às vezes, sou criticada por isso.
Nós da Comunicação – Muitos estudiosos falam da importância de criarmos pontes entre as pessoas, mediando conflitos. A comunicação, sobretudo a digital, é uma boa forma de criar essas pontes?
L. F. – Sim. É uma boa maneira de humanizar um fato. Ver uma notícia sobre o Irã na TV é uma coisa, mas abrir seu Twitter e ver as mensagens das pessoas que estão realmente lá, é diferente. A mesma coisa acontece ao acompanharmos os eventos em Cuba. Há uma blogagem coletiva por lá que envia mensagens e fotos do que está acontecendo. A internet humaniza as pessoas porque é possível se comunicar diretamente e de maneira rápida.
Nós da Comunicação – Como fica a questão da privacidade de uma pessoa que está em mais de 20 comunidades virtuais e milhares de contatos? Sua vida mudou depois que você figurou na capa da revista ‘Veja’?
L. F. – Além de ser reconhecida na escola da filha e na farmácia, o que percebi foi que, em meu trabalho de produção executiva para exposições, as pendências com fornecedores se resolveram incrivelmente mais rápido. O mais engraçado foi quando me perguntaram sobre minha assessoria de imprensa. ‘Ora, sou eu!’, respondi. Houve um aumento de trabalho e, é claro, de pessoas me seguindo. Na semana da publicação da revista, eu tuitei: ‘Gente, é estranho, mas é normal’. De qualquer forma, tenho meus amigos da internet, mas também outros e, às vezes, penso: ‘preciso ir a uma exposição de arte, para variar, não dá só para ir a encontros de internet’. Por incrível que pareça, agora, há muitos encontros presenciais, e simplesmente não dá para acompanhar. A mudança veio muito por conta das empresas que descobriram esse filão para explorar.
Nós da Comunicação – Você acha que a privacidade será o principal ativo dos próximos anos?
L. F. – Sim. Privacidade e tempo, outro item precioso. Veja o novo documento que unificará RG, CPF e número de passaporte. Daqui a pouco, você vai tomar uma vacina, e o médico saberá até para onde você viajou. Sou a favor das informações on-line, como histórico médico armazenado em prontuários na internet, mas, às vezes, tenho um pouco de medo, apesar de ser a favor das informações digitalizadas.
Em São Paulo, temos a Nota Fiscal Paulista, campanha para estimular o pedido de notas em troca de desconto em taxas públicas. Em qualquer lugar aonde você vá, padaria, posto de gasolina etc., te perguntam: ‘CPF na nota?’. É legal, mas é um pouco de invasão de privacidade, pois, no fim do dia, você contou que vai àquela padaria de manhã, almoça em tal restaurante à tarde e compra revista em tal lugar.
Nós da Comunicação – Em sua opinião, por que efetivamente nos comunicamos?
L. F. – Para existir. É como aquela piada do cara que fica preso em uma ilha deserta com uma atriz de cinema maravilhosa, mas sem poder contar para ninguém, ele não vê a menor graça. A comunicação é para mostrar como você é, como se relaciona, conhecer pessoas e fazer amigos.