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Entrevistas

4/9/2009

TECNOLOGIA

Beto Largman afirma que os filtros de conteúdo na era digital serão as pessoas

João Casotti

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Beto Largman, jornalista e blogueiro

Durante a entrevista ao Nós da Comunicação, o jornalista Beto Largman se preparava para ir às ruas a fim de produzir uma reportagem. Mais tarde, naquele mesmo dia, editaria o conteúdo apurado e publicaria em seu blog nos formatos de texto, foto e vídeo, além de divulgar a matéria pelas redes sociais. Segundo o autor do blog Feira Moderna, no Globo Digital, essa é a rotina do profissional de comunicação atual, cada vez mais multitarefa.

Largman, que é organizador do curso Tecnologia: um manual para os novos tempos na Casa do Saber do Rio de Janeiro, falou sobre as transformações pelas quais a sociedade da era digital passa. Ele afirmou que é preciso encontrar novos modelos de negócios e estar atento às novidades que aparecem a todo o momento. Diante da grande quantidade de informação que a internet oferece, são os próprios internautas os responsáveis pelo filtro de conteúdo.

Abaixo, a entrevista completa com Beto Largman.

Nós da Comunicação – Acredita-se que a internet torna superficiais as relações humanas, que transfere o contato pessoal para o virtual. Como você avalia as relações sociais na era digital? A inclusão digital aproxima ou afasta as pessoas?
Beto Largman –
Não concordo, de jeito nenhum. Quem tem tendência ao isolamento, talvez tenha a chance de quebrar essa barreira, e quem já tem tendência a fazer amizades e promover encontros, vai expandir ainda mais o ciclo de amizades. Atualmente, tenho muitos amigos de carne e osso que não conheceria se não fosse a internet. Por isso, acho que é uma balela essa história de que a web afasta o ser humano por ser virtual. Ela torna mais fácil encontrar pessoas com interesses comuns. Pelo Facebook, já encontrei pessoas que estavam perdidas em minha vida. A web só estimula o contato.     

Nós da Comunicação – As indústrias de intermediação estão sofrendo com a internet, que distribui conteúdo livremente, muitas vezes, sem pagar por propriedade ou direitos autorais. É possível lutar contra a cultura de conhecimento livre da web ou as indústrias terão de se adaptar às novas realidades do mercado? Como você visualiza o futuro desse processo?
B. L. –
Estamos em um momento no qual o modelo antigo está sendo pulverizado, como foi a indústria fonográfica. Ainda é preciso encontrar um caminho para adaptar isso, pois não tem volta. Os próprios veículos de comunicação tentam encontrar um modelo de negócios. Muitos pensam que a web nivelará a cultura por baixo. Eu discordo. Porque as gravadoras sabiam mais de música do que as pessoas em geral? Você está colocando poder nas mãos das pessoas. Mas é preciso encontrar novos caminhos. Malu Magalhães, por exemplo, começou no MySpace e, atualmente, ganha uma grana. Ela encontrou um modelo de negócio. Estamos em uma fase de transição, na qual modelos tradicionais foram quebrados e ainda não encontramos um novo modelo. Ainda há muito chão pela frente. 

Nós da Comunicação – Um dos setores mais afetados com a mudança de paradigma econômico, como citado, é o fonográfico. Você, como músico e DJ, acha benéfico para o mercado musical a diminuição do poder das grandes gravadoras?
B. L. –
Totalmente. As gravadoras estavam nas mãos de algumas pessoas de marketing que, muitas vezes, não entendiam nada de música. Da mesma maneira, as editoras eram detentoras do que deveria ser impresso ou não. Quem disse que elas sabiam o que seria legal para a publicação? Quantas coisas boas surgiram que o público não pôde saber? Agora, há como saber. Antigamente, a pessoa editava uma livro, mas se a editora não bancasse, ele não entrava no mercado. Agora, é só colocar na internet. Como isso pode ser ruim para a sociedade? Muitos vão colocar conteúdo de baixo nível na web, mas o filtro serão as pessoas. Como o estudioso Luli Radfaher fala, a escola tem de ensinar a pessoa a filtrar, a ter critério. As pessoas devem fazer as escolhas a partir de uma base cultural. Deve-se optar por escutar funk carioca ou música clássica, o que não pode é ter uma imposição mercadológica.

Nós da Comunicação – Quais as características que o profissional de comunicação deve ter nesses novos tempos?
B. L. –
Em primeiro lugar, o profissional atual tem de estar aberto a mudanças. Muitos jornalistas virarão fósseis na profissão, pois não querem ver a revolução que está acontecendo. O profissional de comunicação tem de estar aberto a mudanças, tem de estar conectado, ser curioso, além de escrever bem, que é uma característica fundamental. Não ter preconceito com as novas tecnologias e estudar muito. A internet tem essa ideia de ser um meio muito fugaz, de muita rapidez, e isso realmente é uma faceta ruim. Mas a pessoa precisa se concentrar e adquirir um background cultural consistente. O acesso está livre para isso.    

Nós da Comunicação – O que é ser um produtor de conteúdo digital?
B. L. –
Estou muito feliz com o momento que estamos vivendo. Agora, por exemplo, estou saindo para fazer uma reportagem. Vou tirar foto, gravar, editar e, depois, jogar em meu blog. Vou fazer um texto que terá imagens e um vídeo editado. Sou uma emissora ambulante. Essas, para mim, são as características de um produtor de conteúdo digital: abraçar todas essas tecnologias e ver o que elas podem ajudá-lo em sua tarefa profissional. É totalmente multitarefa, e o mundo está caminhando para isso. Não há mais espaço para aquela pessoa que nasce engenheiro e morre engenheiro. O mundo muda muito rápido, profissionalmente também. Quem diria, há algum tempo, que um analista de redes sociais seria uma profissão? Ou que ser blogueiro seria uma profissão? As coisas estão em constante mudança, e é por isso que as pessoas precisam estar abertas.

Nós da Comunicação – No dia 8 de setembro, começa o curso Tecnologia: um manual para os novos tempos. Como organizador do curso e mediador das palestras, qual é sua expectativa com as discussões sobre a era digital na Casa do Saber?
B. L. –
É um ciclo de encontros divido em quatro palestras, com a proposta de dar acesso à experiência de profissionais que também são pensadores sobre o impacto da tecnologia na vida das pessoas. Cada um será focado em determinado aspecto. As pessoas terão espaço para perguntas, eu estarei no Twitter, via wi-fi, e a ideia é que haja o debate. As palestras serão um manual para as pessoas que estão perdidas no meio de tanta informação. O objetivo é apresentar a todo tipo de profissional as profundas mudanças em nossa sociedade. Será um tour real por esse mundo virtual que está chegando com tudo.

 


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