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Entrevistas

3/9/2009

INTERNET

Tiago Dória: na era da internet, mídia e comunicador não perdem a importância

Christina Lima

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Tiago Dória

O jornalista e blogueiro Tiago Dória acredita que mesmo em um tempo em que todo mundo pode ser produtor, editor e distribuidor de conteúdo não é qualquer um que tem o que falar. “Talento ainda é um produto escasso”, afirma. Para ele, em algumas áreas, o papel de mediadora da grande mídia foi transferido para as “novas mídias”: “De três a quatro colunistas de tecnologia que definiam o que era bom e legal para cinco ou seis blogueiros de tecnologia que definem o que é hype”.

Dória, que é colunista do Notícias MTV e integrante do júri do Concurso de Jornalismo da CNN no Brasil, edita o ‘Tiago Dória Weblog’ página pessoal em que debate cultura web, tecnologia e mídia.

Nós da Comunicação – Chad Hurley, do YouTube, em passagem pelo Brasil, resumiu bem os tempos atuais: “A explosão das redes sociais realmente alterou o eixo da comunicação entre as pessoas”. Em sua opinião, qual a maior transformação que ‘a vida em rede’ nos trouxe?
Tiago Dória –
A principal mudança é o fornecimento de uma tecnologia barata e genérica que permite distribuir e processar grandes quantidades de informação. Tecnologia que, por sinal, fica, cada vez mais, parecida com a eletricidade. Tão presente no nosso cotidiano que, a cada dia, percebemos menos que ela existe. A partir dessa tecnologia estão acontecendo diversas mudanças: crise de conteúdo, transferência de controle, concentração e, ao mesmo tempo, compartilhamento maior de riqueza.

É difícil definir uma transformação principal. São muitas, pequenas e, às vezes, contraditórias transformações, reflexo da própria natureza da internet, que, simultaneamente, pode ser uma ferramenta de libertação pessoal e um instrumento de controle. Apesar das teorias proféticas e negativas iniciais, somente vamos perceber se os efeitos dessas transformações foram positivos ou não daqui a 10, 20 anos. Ou seja, em essência a internet causa um processo de transformação parecido a tantas outras tecnologias.

Nós da Comunicação – Temos destacado no Nós da Comunicação as tentativas dos jornais impressos e da indústria fonográfica para sair da crise, entre elas, pagamento por matérias e músicas avulsas. A Era do conteúdo gratuito na internet acabou?
T.D. –
Acredito que uma Era do conteúdo gratuito existe em parte. Quando utilizamos um serviço gratuito como o Google, por exemplo, estamos fornecendo, de forma indireta e direta, diversas informações sobre os nossos hábitos on-line. É uma troca. Fornecemos nossos dados e recebemos em troca personalização e facilidade de uso. Na verdade, nada é gratuito. O que estamos vendo é a discussão sobre uma nova onda de conteúdo pago por parte de algumas empresas de mídia.

Mas, ao que tudo indica, desta vez será diferente. Serão levadas em conta as diferenças de cada conteúdo, serão adotadas estratégias mais minuciosas. Não será qualquer conteúdo que vai entrar no paredão de conteúdo pago. Conteúdos de nicho e original terão um tratamento especial. E vários modelos de receita serão trabalhados ao mesmo tempo, como publicidade, micropagamentos e assinaturas.

Nós da Comunicação – Em nossa sociedade atual, em que todos ganham as funções de produtor, editor e distribuidor de conteúdo, qual a importância do comunicador? Ao perder parte do poder de mediadora, qual o papel da mídia hoje e nos próximos anos?
T.D. –
Hoje, qualquer pessoa pode ser produtor, editor e distribuidor de conteúdo. Mas não é qualquer pessoa que tem talento ou o que falar. Talento ainda é um produto escasso.

Para mim, a mídia e o comunicador, como profissional, não perdem a importância. A função da imprensa não é somente ser mediadora. Mas questionadora, participar dos debates e estar à frente do público. Ou seja, propor e levantar temas que, às vezes, estão à frente de seu tempo e muitas vezes podem não agradar o seu público.

A mediação é apenas um dos papéis da mídia. Além disso, mesmo com a internet, a mediação ainda existe. Em algumas áreas, ela foi transferida da chamada “grande mídia” para as “novas mídias”. De três a quatro colunistas de tecnologia que definiam o que era bom e legal para cinco ou seis blogueiros de tecnologia que definem o que é hype.

Sem contar que, nesta questão de mediação, não devemos esquecer que muitas fontes ainda não sabem falar diretamente com o público, ainda têm necessidade de alguma espécie de mediação, vide o que aconteceu recentemente com o Mercadante e a Xuxa no Twitter. Enfim, tenho um pé atrás nesse papo de que a mediação da mídia simplesmente acabou num passe de mágica.

Nós da Comunicação – Como meio de informação, quais as possibilidades ainda não exploradas por microblogs, blogs e outros formatos de mídia sociais? Editorialmente, qual caminho essa evolução vai seguir?
T.D. –
Em 2007, a The Bivings Report publicou um estudo sobre 16 usos editoriais para os blogs. A gente vê que até hoje as empresas não usaram nem 50% da potencialidade dessas ferramentas.

Acredito que as empresas absorverão de forma mais rápida esses formatos, até por que algumas já estão mais bem inseridas na cultura digital (BBC e Guardian para citar duas). A questão é: qual a velocidade com que esses formatos serão inseridos na estratégia das empresas.

Nós da Comunicação – Você integra o júri do Concurso Universitário de Jornalismo CNN.  Como é esse trabalho?
T.D. –
Recebi o convite e entrei, logo de primeira, no concurso deste ano, que teve como tema o uso da tecnologia para o desenvolvimento social. Basicamente, o meu trabalho foi de triagem, de fazer uma primeira seleção das reportagens que são enviadas de todo o Brasil para o concurso. Durante a época de inscrições, fui convidado a escrever um texto sobre tecnologia no blog do concurso.  Depois, durante o processo de julgamento, fiquei o dia inteiro em um hotel, em São Paulo, para fazer a seleção junto aos outros jurados.

Gostei bastante, tive a oportunidade de conhecer o trabalho de estudantes do país inteiro e ter uma noção de como anda o ensino de jornalismo, além do que as pessoas pensam sobre o que é tecnologia.

 


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