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Entrevistas

2/9/2009

COMPORTAMENTO

Giselle Beiguelman explica por que somos seres cíbridos

João Casotti

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Giselle Beiguelman, professora de cultura digital PUC-SP

Vivemos a condição cíbrida. Com o desenvolvimento da era digital, o ser humano está cada vez mais conectado com o mundo da internet, criando um ambiente de convívio com redes de diferentes naturezas: on-line e o off-line. Em entrevista ao Nós da Comunicação, Giselle Beiguelman, professora de cultura digital da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), falou sobre o conceito de cibridismo e da experiência do indivíduo moderno, que vive entre o virtual e o real.

A autora da premiada obra ‘O livro depois do livro’ afirmou que as plataformas de acesso à web estão mais portáteis, o que estimula novas formas de comunicação, produção e circulação de informação. Ao analisar as redes sociais da internet, ela cobrou mais conflitos e debates. Considerou as alianças nesses ambientes de relacionamento tão sólidas que chegam a suprimir possibilidades de expansão da consciência política e social.

Confira a entrevista com Giselle Beiguelman completa abaixo.

Nós da Comunicação – Poderia explicar o que é o cibridismo?
Gisele Beiguelman –
Em minha definição, cibridismo é um conceito que expressa a experiência de estar entre redes (on e off-line). Outra definição corrente, de autoria do arquiteto americano Peter Anders, é a do cibridismo como projeção do virtual na realidade cotidiana. Os dois conceitos não são opostos e, em alguns pontos, até se complementam. Contudo, prefiro trabalhar com a ideia de experiência “entre” redes por me parecer mais abrangente e válida no âmbito das nuvens computacionais, em que estamos o tempo todo on e off-line, mediados por redes de distintas naturezas e com diferentes aberturas e possibilidades de participação: direta, passiva, aleatória etc..

Nós da Comunicação – Como você afirma no início de seu artigo ‘Admirável mundo cíbrido’, estamos em um período de popularização dos dispositivos portáteis de comunicação sem fio – como o iPhone, celulares 3G – que possibilitam conexão à internet a qualquer momento. Diante desse cenário, qual a consequência para a comunicação social?
G. B. –
A comunicação social e a interpessoal têm se intensificado, isso é inegável. O aumento da banda da telefonia móvel, a proliferação das redes sem fio e a multiplicação das plataformas dos chamados softwares sociais, como blogs e redes de relacionamento, vêm produzindo mudanças sem precedentes nas formas de comunicação, produção e circulação de informações. Entre outras implicações, essas variáveis apontam para a diminuição do gap de conectividade entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento e a expansão das formas de conhecimento colaborativo. Mas tão importante quanto essas relações emergentes tem sido o aumento do uso promocional de suas ferramentas com finalidades de marketing, inaugurando a curiosa era dos “fansumidores”, como ressaltou o jornalista de tecnologia do jornal ‘Guardian’, Jack Schofield. Isso, para mim, cria uma zona de opacidade em que se confunde uso gratuito do espaço informacional com “espaço público” e faz com que se percam os matizes políticos e as vozes dissonantes nos processos de comunicação.

Nós da Comunicação – A superficialidade de conteúdo pode ser uma consequência da característica multitarefa que o leitor cíbrido assume?
G. B. –
A característica multitarefa responde à emergência do leitor de inteligência distribuída, que é o leitor do mundo cíbrido. A superficialidade não é produto dos meios, nem de um suposto excesso de informação. A hipótese de que exista um estado de excesso de informação apenas calibra uma aspiração conservadora que pressupõe ser necessária uma hierarquia de poder intelectual, que seria responsável por filtrar e entregar o conteúdo aos receptores responsáveis. O problema, portanto, não é descobrir como limitar a quantidade de informações e de inputs de origens diversas a serem processados, mas sim como ampliar, cada vez mais, o volume qualitativo do conteúdo midiático e cultural que circula na internet e fora dela.

Nós da Comunicação – Como os comunicadores podem aproveitar as possibilidades de expansão da consciência nos ambientes on-line e off-line?
G. B. –
As consciências política e social dependem necessariamente do ruído e da tensão comunicativa. Ou seja, do debate, da discordância e dissonância que implicam novos vetores e direções, mudanças nos modos de pensar e agir. Nesse sentido, as redes sociais vêm se constituindo, paradoxalmente, como enclaves. Nessas redes, prevalece um regime de alianças entre amigos tão sólido que suprime a possibilidade de conflito. Espaços de relacionamento protegidos, espécie de jardins murados de redes dentro das redes, de certa forma, sufocam a lógica criativa, pois vivem de uma afirmação contínua, de círculos de amigos que só se juntam por suas supostas afinidades. Isso talvez explique porque as chamadas redes sociais são tão propícias à autopromoção e aos aplausos (expressões sempre muito individualistas). Em síntese, acredito que as possibilidades de enriquecimento e expansão da consciência passam pelo investimento nas esferas de tensão e conflito, que são os fundamentos da razão e ação críticas.

Nós da Comunicação – Porque a iconografia aplicada no mundo digital se assemelha ao mundo físico? Como você afirma em seu artigo, ‘é uma estratégia para convencer o público de que nada muda em seu repertório cognitivo’?
G. B. –
O problema dessa iconografia não é que ela se assemelhe ao mundo físico, mas sim que não tem coerência com o ambiente on-line. É fato que a arquitetura da web 2.0, fundada nas tags, subverteu bastante algumas retóricas dominantes. Contudo, há ainda modelos que subsistem e precisam ser subvertidos. Basta lembrar de algumas metáforas bem populares: a da tela e a página, o ícone da “casa” ou a própria ideia de “site” num espaço – o ciberespaço – que se caracteriza justamente por ser um não-lugar, com uma geopolítica e um ritmo de circulação de dados que não se assemelham a nossa topografia. Mais do que denunciar falta de vocabulário, essas metáforas denotam incapacidade de romper com um mecanismo de significação do mundo que opera por contiguidade e semelhança. Trata-se de uma semiótica que não é validada pela dinâmica da cultura digital e que fazia sentido no âmbito daquela velha forma de alfabetização baseada no “J” que faz parte da figurinha da jarra... Vivemos, hoje, um ambiente de leitura cujo imaginário é mais plural. Demanda, por isso, novas terminologias e iconografias.

Nós da Comunicação – Realidade aumentada é uma nova tecnologia que deve, nos próximos anos, começar a se popularizar na sociedade. Como você avalia o futuro dessa condição cíbrida, considerando o crescimento da inclusão digital? Haverá confusão entre o que é real e o que é virtual?
G. B. –
A virtualidade não é uma decorrência da cultura digital. A virtualidade é uma potência do real. Retomo aqui um exemplo do Pierre Lévy, de que gosto muito: O fogo virtualizou a madeira, o contrato virtualizou a violência e a internet virtualizou o computador. Ou seja, virtualizar é uma potência criativa da ação cultural do homem sobre a natureza. O que vivemos hoje é a condição cíbrida, um ambiente de redes de distintas naturezas simultâneas e assincrônicas, mediado e impulsionado por inúmeros dispositivos de conexão, que se aprofunda e se alarga com a mobilidade e o nomadismo tecnológico. Não confundiremos o real e o virtual, e sim, cada vez mais, usaremos os dispositivos, especialmente os móveis, como controles remotos urbanos e lentes de aumento do que nos rodeia.

 


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