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Entrevistas

19/8/2009

GESTÃO

Carlos Nepomuceno propõe novo ponto de vista sobre a gestão do conhecimento

Christina Lima

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Carlos Nepomuceno, jornalista e professor universitário

A possibilidade de comunicação gerada por muitos, para muitos, e a distância, é uma das principais qualidades de nossa vida em rede. Um cenário cuja origem vem do livro impresso de Gutemberg, passa pela Revolução Francesa e se desenvolve dia a dia na internet que conhecemos hoje. Quem faz essas conexões que ajudam a entender o fenômeno da web 2.0 é Carlos Nepomuceno, jornalista, professor (UFRJ, Facha e Senac), pesquisador e consultor.

Nepomuceno é autor do livro ‘O conhecimento em rede’ (Editora Campus Elsevier), em parceria com Marcos Cavalcanti, e em entrevista ao Nós da Comunicação demonstra clara compreensão da evolução da internet e da revolução gerada pela web 2.0, além de comentar a importância dos blogs e do uso de uma mentalidade colaborativa nas empresas a fim de reduzir atividades burras e repetitivas, aumentar a produtividade e a qualidade nos resultados. “O que as organizações devem fazer é a gestão de um ambiente que propicie lidar com a maior quantidade de registros possíveis, que isso vire informação e que passe a entrar no poder cognitivo para produzir um trabalho mais interessante”, afirma.

Confira a entrevista completa com Carlos Nepomuceno.

Nós da Comunicação – Você afirma que, na realidade, não somos nem a sociedade da informação nem a do conhecimento. Se fosse rotular nossa era, como você o faria?
Carlos Nepomuceno –
Há um texto do Manuel Castells que promove essa discussão. Diz que o conhecimento e a informação sempre foram fundamentais para podermos desenvolver progresso e riqueza. Se fôssemos caracterizar essa sociedade como a do conhecimento, teríamos de descaracterizar todas as outras sociedades. As pessoas veem tanta informação que acreditam que, com esse volume todo, podemos dizer que vivemos na sociedade da informação pela quantidade.

Pelo que tenho visto e estudado, há uma relação entre o tamanho da população e a quantidade de informação que você precisa circular na velocidade necessária. Há sete bilhões de pessoas no planeta, e o volume de informação está compatível com esse número. O incompatível era o modelo anterior, o da mídia unidirecional que não permitia que essa população se comunicasse. Trabalho com a ideia de que a gente tem redes de conhecimento. Tivemos uma caracterizada pelo diálogo, baseada no oral, uma rede ‘de um para um’; depois outra muito baseada na escrita, com modelo de troca de informação ‘de um para muitos’, e agora entramos em um suporte informacional baseado no computador, em rede digital, com interação predominante ‘de muitos para muitos a distância’. O que o ser humano vem desenvolvendo é a capacidade de possibilitar aquela interação feita já no tempo das cavernas, só que agora, a distância. Passamos a fase ‘de um para muitos’ e agora estamos na de ‘muitos para muitos’.

Nós da Comunicação – Por que você defende que a gestão do conhecimento é um mito?
C. N. –
Esse termo é uma tentativa de resolver um problema que a gestão da informação tinha. Fazia-se a gestão da informação e esquecia-se que existiam pessoas. Baseada claramente em interesse de consultorias, surge a gestão de conhecimento. Tanto a informação quanto o conhecimento dependem que alguém esteja em relação com aquele registro. Um livro é só um livro, um pedaço de papel. Se cair um livro escrito em japonês em uma ilha com pessoas que não leem japonês, vai virar fogueira. Para que esse livro possa ser lido, a pessoa deve ter a capacidade cognitiva de entender o que está escrito, e dessa forma, estabelecer uma relação de troca e interpretar aquelas ideias, as depositando em uma determinada rede neural que possa utilizar mais adiante. Quando essa informação é trabalhada na cabeça de alguém, o conhecimento vira um processo evolutivo.

Na realidade, ninguém possui o conhecimento sobre determinado assunto. Tem a possibilidade de desenvolver aquele conhecimento em determinada situação. Portanto, para dizer que existe a gestão do conhecimento, você admite que o conhecimento é um substantivo, que o conhecimento na cabeça daquele indivíduo sairá na hora que ele apertar um botão, e isso não acontece. O que as empresas devem fazer é a gestão de um ambiente que propicie que as pessoas possam trabalhar com a maior quantidade de registros possíveis, que isso vire informação e que passe a entrar no poder cognitivo para produzir um trabalho mais interessante e gerar um novo item, que é o de poder usar tudo isso com sabedoria. Assim, envolve-se ética, autoconhecimento e mudança de perspectiva.

Nós da Comunicação – Quais as principais transformações que a web 2.0 promoveu na sociedade?
C. N.  –
A web 2.0 é algo muito parecido com o livro 2.0 que surgiu em 1450 quando Gutemberg inventou a prensa. Naquele momento, houve uma explosão informacional muito parecida com a nossa. Essa transformação era caracterizada pela redução de custo do livro. Um manuscrito era muito caro, enquanto um livro impresso poderia ser reproduzido com exatidão e com mais rapidez. Surgia então a indústria do livro impresso, as editoras e a indústria cultural que criou as bases para o jornal, rádio, TV etc.. Somos, portanto, filhos da civilização do livro impresso. Quando surgiu o computador, em 1940, o microcomputador em 1980, a Rede em 1990 e sua evolução até 2004, aconteceu também o que se passou na época do livro: a evolução de uma determinada plataforma de conhecimento com uma drástica redução de custo, e a massificação de seu uso.

Em minha avaliação, a web 2.0 se caracterizou quando o custo de acesso foi baixado pela banda larga. Se analisarmos gráficos das redes sociais e da banda larga, constatamos que as curvas ascendentes das duas coincidem. Acredito que o mais importante na web 2.0 é a possibilidade da massificação dessa nova interação do ser humano da maneira ‘muitos para muito a distância’. Ela vem para suprir a necessidade que a mídia impressa não conseguia mais: permitir que um conjunto de ideias que estava latente na sociedade viesse a público. É um problema que vivenciamos a partir do aumento da população e a consequente necessidade de uma ferramenta de informação mais rápida. A perspectiva, agora, é que o sistema entre em equilíbrio, para então iniciar um processo de desequilíbrio de novo.

Nós da Comunicação – E quais as vantagens dessa vida em rede?
C. N. –
Vivemos, hoje, com dois grupos: os entusiasmados e os tecnofóbicos. Os entusiasmados dizem que a internet veio para salvar o mundo, já os tecnofóbicos afirmam que a web é o inferno na Terra. Temos então de caminhar em uma rua estreita onde a internet não seja a solução para os problemas do ser humano, mas também não crie enormes problemas. A internet vem para resolver um equilíbrio sistêmico, pois não havia mais condição da informação circular da maneira que estava circulando para uma população de sete bilhões. Na Europa, em 1500, passados 50 anos da invenção dos tipos móveis e da explosão dos livros impressos, havia 27 mil títulos de livros, somando 13 milhões de exemplares em circulação. Uma pessoa que não tinha condições de saber o que um filósofo pensava, passou a saber, e isso foi gerando discussão, contraposição de ideias. Essa possibilidade de troca fez com que os europeus começassem a pensar: ‘Será que o que vemos hoje na sociedade deveria ser como é?’. Daí veio a Reforma de Lutero, um período muito estudado por historiadores e antropólogos da informação, e que foi a primeira grande mudança social surgida a partir do livro impresso. Foi uma reforma protestante que simplesmente dividiu a Europa em duas.

Passados um 200, 250 anos, houve a Revolução Francesa, um ajuste das ideias que começaram a circular: ‘Será que o rei foi mesmo o eleito de Deus na Terra?’ ou ‘Será que não podemos eleger as pessoas no poder?’. A revolução de1789 traça uma nova maneira de fazer as coisas, com a criação da República, do voto, do parlamento. O que observamos, atualmente, é que há uma recolocação de injustiças e a criação de novas injustiças, que certamente uma nova plataforma de conhecimento tentará resolver, e continuará a criar novos problemas. Como consumidores, por exemplo, somos injustiçados. Antes da internet, o consumidor era um ser zerado. Não significa que grandes empresas não tentarão criar uma nova forma de manipular seus consumidores. O que acontecerá será uma atualização de justiças e também das injustiças. Isso não quer dizer que não podemos aumentar a velocidade para que essas injustiças conhecidas acabem, mas também não podemos nos iludir e acreditar que novas injustiças não surgirão.

 

O poder dos blogs

Nós da Comunicação – Qual o papel dos blogs nesse novo modo de viver? Esses veículos estão conseguindo lançar luz sobre novos assuntos, apresentar novos pontos de vista ou a maioria simplesmente reproduz conteúdo e publica outros sem relevância?
C. N. –
Existem dois aspectos que temos de analisar quando olhamos para a internet e suas ferramentas. Temos o blog enquanto tecnologia e o blog enquanto ideologia. A tecnologia do blog – uma forma melhor de publicação – será adotada por todas as empresas, pois é uma ferramenta muito inteligente. A tecnologia do blog já está sendo incorporada pelas organizações e irá substituir todas as homepages estáticas que temos na internet. Os blogs são publicados de forma rápida, possuem tags, colunas laterais que arquivam posts, RSS que permite a reprodução de informações de outros blogs e permite um diálogo com o usuário por meio dos comentários. Enfim, é a ferramenta dos sonhos. A discussão sobre a tecnologia do blog já está vencida em minha cabeça. Os sites das empresas serão dentro do Wordpress e similares.

Ideologicamente, temos dois tipos de blogs disputando a vida na internet: os da mídia e os off-mídia. Para mim, o blogueiro de sucesso é aquele que não tinha apoio de ninguém e tem êxito só pela qualidade de seu texto. Os blogs, as redes sociais e todas as ferramentas de ’baixo para cima’ vêm criar luz nas sombras da ‘Idade Mídia’. Por exemplo, onde estavam as informações sobre o Campeonato de Botão de São Gonçalo? Qual jornal, TV ou rádio que cobria isso? Os jogadores de botão não são pessoas que têm o direito de divulgar informações de seu interesse para pessoas que gostam de futebol de botão? Os blogs jogam luz onde a mídia tradicional não alcança, gerando um mundo enorme de possibilidades. Quem escreve em um blog tem de procurar um novo ponto de vista e escrever o que os outros não estão escrevendo.

O estudioso Moreno [Barros] tem a tese de que há dois tipos de blog: o do ‘Eu vi’ e o do ‘Eu acho’. Para fazer o blog do ‘Eu vi’, o indivíduo tem de ver o que ninguém mais está vendo e, assim, pode complementar a mídia. Esse é o caso do blog do futebol de botão e de 80% dos blogs. Já o blog do ‘Eu acho’ tem menos gente porque ter um ponto de vista diferenciado já é mais difícil. Dentro da ideologia, apesar das fronteiras tênues entre eles, há essa luta pelo espaço.

 

A implementação de um ambiente 2.0 nas organizações

Nós da Comunicação – No ambiente corporativo, como ferramentas colaborativas podem contribuir para uma nova forma de trabalho?
C. N. –
Quando você encara uma mudança de mídia como a nossa, temos de recolocar algumas questões. Começamos a pensar então sobre certos termos: Colaborar quer dizer ‘trabalhar juntos’, e o que aconteceu na Idade da Mídia é que as empresas criaram um modelo hierarquizado para poder administrar centenas de funcionários com um chefe em cima. Não existia outro tipo de controle, o que acabou criando uma cultura do ‘eu laboro’. A internet, como mídia, abriga dois tipos de colaboração: uma é a involuntária, pois é a primeira vez que é possível percorrer o caminho de uma pessoa em um ambiente informacional. Ao ler um livro ou jornal, você passa os olhos pelas notícias, mas não clica em nenhum título. Ao terminar de ler, o dono do jornal não sabe o que você leu. Na internet há um rastro de onde você passou. Ao clicar, o usuário já está contribuindo involuntariamente para que uma inteligência coletiva seja trabalhada. O Google percebeu isso ao pensar em seu modelo de negócio. No momento em que você procura uma palavra-chave e ele te apresenta as opções com relação àquela palavra, trabalha diretamente com inteligência coletiva involuntária.

O primeiro passo das empresas deve ser adotar e se beneficiar dessa inteligência coletiva involuntária. Isso começa quando refazemos a ideia de trabalho. Um profissional ao desenvolver uma apresentação, salva o arquivo em seu HD. Outra pessoa na mesma empresa vai fazer uma apresentação sobre o mesmo assunto e também guarda no próprio computador. A internet mostra que você tem de colocar esses arquivos em uma intranet 2.0 em que todo o trabalho da empresa – que é o que forma o conhecimento – esteja disponível para todos acessarem. E mais: conforme as pessoas vão clicando, é possível saber quais apresentações sobre aquele tema foram mais baixadas e utilizadas.

Normalmente, na implantação de projetos 2.0, a primeira resistência é: ‘vou trabalhar mais’. Mas o fundamental é mostrar que, dessa forma, você reduz o tempo de procura, ganha em produtividade e, a cada trabalho, agrega conhecimento, diminuindo o trabalho burro e repetitivo e aumentando a qualidade do trabalho abrindo mais espaço para colaboração voluntária. Assim, o profissional se sente mais motivado para colaborar, comentar, blogar ou incluir tags.

Nós da Comunicação – De que maneira as empresas conseguirão sair da fase do “eu laboro” para entrar na era do “co laboro”? Quais os fatores para a implantação de sucesso de um ambiente 2.0 nas organizações?
C. N. –
Nas empresas, essa ficha ainda não caiu. Isso é normal, porque os planejamentos estratégicos nunca levaram em conta que os ambientes informacionais externos mudaram. Hoje, vivemos uma ruptura que não foi prevista pelas organizações. Como as pessoas já viveram várias mudanças administrativas e vários processos de reengenharia, não há muita percepção do que está acontecendo. Várias empresas que ganharam prêmios de inovação este ano podem não ter adotado ferramentas 2.0, mas abraçaram a ideologia 2.0. O educador Paulo Freire defendia uma sala de aula ‘de muitos para muitos’ já em 1964; quando o diretor Augusto Boal pensou na ideia do Teatro do Oprimido – uma mudança do teatro vertical para um teatro horizontal – era uma ideologia ‘de muitos para muitos’ também. Portanto, uma empresa no século passado já poderia ter se beneficiado ao perceber que a colaboração era mais interessantes que o modelo vertical.

São dois aspectos: as pessoas podem usar a ideologia à vontade, e é a tecnologia que permite que você faça um trabalho menos burro e que sobre espaço para o ‘co laborar’ e não para o ‘eu laborar’, além de ter tempo para contribuir de forma mais inteligente, gerando mais inovação. O problema principal é perceber o cenário, e essa dificuldade parte do topo das empresas. Esse discurso não está no currículo desse líder, no MBA que ele estudou, nos livros de Harvard que ele leu, porque é algo muito novo. Geralmente, são poucas pessoas da área de tecnologia que falam dessas coisas quando fazem as avaliações. Concordo com Chris Anderson, autor dos livros ‘Cauda longa’ e, mais recentemente, ‘Free’, quando diz que não vivemos uma época de mudanças, mas sim uma mudança de época, é difícil cair a ficha. A principal dificuldade é a percepção e o investimento que as empresas têm de fazer na concepção geral de mudanças realizadas por dentro – com a chegada de novos funcionários que já trabalham com a ideia de ‘muitos para muitos’, e também ao lidar com o consumidor que não é mais o mesmo. Quem for mais rápido sai na frente e terá mais oportunidades.
 


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