Gabriela Bittencourt
Responsável pela criação de personagens que sempre estiveram presentes na vida de várias gerações, o cartunista Mauricio de Sousa completou 50 anos de carreira na primeira quinzena de julho com a extraordinária marca de 1 bilhão de revistas publicadas. Ao longo desses anos, o público acompanhou não apenas as evoluções nos traços dos desenhos, mas a participação cada vez mais intensa dessas figuras no dia a dia das famílias brasileiras.
Mauricio mostra-se como um cartunista que está inserido em cada momento de avanço tecnológico e atento às mudanças do público. O autor já criou personagens que representam períodos marcantes para o País, como o Ronaldinho Gaúcho, em 2005, e as novas integrantes da Turma da Mônica, Tikara e Keika, lançadas ano passado para comemorar o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Sua mais recente publicação, a Turma da Mônica Jovem, é considerada o maior sucesso dos quadrinhos nos últimos 30 anos. As quatro primeiras edições da revista venderam, juntas, mais de 1,5 milhão de exemplares, mostrando a capacidade do cartunista de obter êxito na comunicação com os adolescentes.
O cartunista também está atento às novas tecnologias: seu perfil no Twitter é atualizado e possui quase 36 mil seguidores. Além disso, acaba de lançar o site Máquina de Quadrinhos, voltado para crianças, que poderão criar as próprias histórias da Turma da Mônica.
Em entrevista ao Nós da Comunicação, Mauricio de Sousa destaca alguns dos momentos dos seus 50 anos de carreira, que passaram tão rápido que ele mal dá conta.
Nós da Comunicação – Seus desenhos estão presentes na vida de muitas gerações. Conseguiria definir qual o público das histórias do Mauricio de Sousa?
Mauricio de Sousa – No início, desenhava em jornais, e o público era, originalmente, adulto. Mas pela natureza de minhas histórias, os filhos dos leitores começaram a folhear o jornal e descobriram nossos personagens. Desde então, cada vez mais, fui elevado à condição de autor de histórias para crianças, embora, felizmente, o público adulto continue a nos acompanhar em certo número. Mas a virada foi a Turma da Mônica Jovem, lançada há um ano, e que preencheu o espaço que desejávamos: o do leitor jovem. Assim, meu público se estende a todas as idades.
Nós da Comunicação – Por que o desejo de alcançar o público adolescente?
M. S. – A necessidade era chegar aos jovens, que estavam abandonando a Turma da Mônica tradicional e se baldeando para os mangás japoneses. Mas, ao mesmo tempo, queríamos atender a uma velha vontade do público de conhecer minha turminha com mais idade.
Nós da Comunicação – Como explicar o sucesso da Turma da Mônica Jovem mesmo com o acesso fácil a outras publicações e recursos digitais?
M. S. – Sucesso, geralmente, não se explica. Mas há uma série de fatores que levam a ele. No caso, a longevidade da Turma da Mônica, o cuidado gráfico, as boas histórias e os desenhos muito bonitos dos personagens fizeram a boa diferença para um caso de sucesso.
Nós da Comunicação – Ao longo desses anos, muitas tecnologias foram inseridas no dia a dia das pessoas. Como utilizou esses recursos em seu favor?
M. S. – Estamos, a equipe, a Turma da Mônica e eu, ligados ao que acontece na tecnologia. Temos de falar a mesma língua para nos entendermos. Assim, devemos estar presentes nas principais plataformas de comunicação, em contato com o público em todos os níveis, entendendo anseios, avaliando críticas, atendendo a sugestões... Essa comunicação e a interação com a utilização dos canais possíveis também faz a diferença.
Nós da Comunicação – Falando em interatividade, qual a proposta da Máquina de Quadrinhos?
M. S. – Queremos, cada vez mais, oferecer um trabalho interativo para as crianças. A Máquina é um site em que elas têm quantidade de personagens e elementos de uma história em quadrinhos. Caso queiram incrementá-las, precisarão comprar novos itens. As melhores histórias criadas pelas crianças poderão ser publicadas em nossas revistas.
Nós da Comunicação – Como as novas mídias sociais estão influenciando em sua rotina de trabalho?
M. S. – Com a força que essas mídias representam hoje, esses são os novos caminhos que encontro para ouvir e ser ouvido. O Twitter, por exemplo, permite o contato imediato com o público. É a abertura de uma interatividade sensacional.
Nós da Comunicação – Há diferença entre as crianças e os adolescentes de hoje e do passado? Falar com esse público muda em função das novas tecnologias?
M. S. – Diferenças? São cabeças necessitadas de atenção e de carinho, cérebros antenados e saltando para o futuro nas ações e ambições. E estou falando das duas ou três ultimas gerações.
Nós da Comunicação – O que acha das medidas que preveem vetar as campanhas publicitárias voltadas para as crianças e também o uso dos personagens da Turma da Mônica em produtos para esse público?
M. S. – Assunto polêmico. Mas, em princípio, creio que o importante é educarmos nossos filhos para que eles saibam, conheçam e habituem-se a ter bons hábitos alimentares, independentemente de leis e decretos, que até podem normatizar áreas mais delicadas, mas não devem interferir na liberdade do cidadão.
Nós da Comunicação – Qual o balanço que você faz desses 50 anos de carreira?
M. S. – O quê? Já se passaram 50 anos? Parece que foi ontem. Então, obrigado pelo papo. Já vou indo para os primeiros compromissos do segundo cinquentenário.