Pollyana Ferrari
A inovação das redes sociais anda tão rápido que não conseguimos olhar para tudo que está acontecendo de forma linear. Por isso, aceite este bate-papo não linear, recheado de flashbacks, quase relatos que poderiam fazer parte do filme ‘O brilho eterno de uma mente sem lembranças’ para mapearmos, juntos, a comunicação que temos hoje presente na web, uma sociedade permeada por webdesigners wiki, produtores de mundos virtuais, VJs, DJs, reality shows, animes, Second Life, YouTube, facebook, Jornalismo Cidadão, snack culture etc.
Vivemos em uma era em que não existe mais diferença entre espaço público e privado; basta lembrarmos da atual febre do YouTube, onde o cotidiano ganha a rede em vídeos com edições caseiras, no estilo faça-você-mesmo. Andy Warhol disse em 1968 que “no futuro, todo mundo será famoso por 15 minutos”. O futuro chegou e o tempo limite dos vídeos do YouTube são 10 minutos.
O lado positivo é o faça-você-mesmo. A ‘remixagem’ diária da sociedade. Estamos vivenciando o fim da autoria, não existe na música, na literatura, nas artes em geral, uma grande descoberta, mas sim vários autores juntos, produzindo uma releitura de algo. O lado negativo é a falta de profundidade que o fenômeno snack culture causa. Mas os exemplos positivos têm superado: O site de jornalismo coreano OhmyNews, por exemplo, lançou recentemente sua Faculdade de Jornalismo Cidadão, que prevê um centro colaborativo de conhecimento para atender 60 mil repórteres e cidadãos. Na mesma rede social temos também o caso do jornalista norte-americano Jeff Jarvis, que criou um blog e pôs a boca no trombone contra a Dell. Comprador de um laptop dessa marca, Jarvis percebeu que o micro estava com defeito e tentou de todas as maneiras ser ouvido pela empresa. Cansado dos problemas com o telemarketing, criou o blog BuzzMachine e rapidamente a história do Dell Hell se espalhou pelo mundo, obrigando a empresa a rever sua política de atendimento ao consumidor.
A apresentadora norte-americana Oprah Winfrey percebeu que não dava mais para ficar fora do YouTube. Na segunda semana de novembro, seu primeiro vídeo arrematou mais de 1 milhão de visitas. Agora, seu programa de TV transforma personagens do YouTube - como a cantora holandesa Esmee Denters, que vem ganhando fãs no mundo todo depois que se lançou no site de vídeos - em entrevistados. Bem como os bastidores do programa e tudo que ocorre durante os intervalos comerciais acabam virando atrativos na web. Com intuito de experimentar novas formas de narrativas e por acreditar em ambientes colaborativos criei o coletivo Remix Narrativo, ambiente participativo de troca de narrativas, sejam em formato textual (poesias, contos, folhetins ou histórias cotidianas), formato imagético (fotografias, ilustrações, vídeos, recortes), ou formato sonoro (MP3). Não vejo as redes sociais como uma ameaça, mas como um tesouro a ser descoberto. Estamos vivenciando na web a mesma adrenalina dos grandes navegadores como Colombo.
Pollyana Ferrari é doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e consultora web. Há 20 anos atua no mercado editorial de informática, tendo dedicado os últimos 13 anos à internet, acumulando os cargos de diretora de portal do iG e diretora da Editora Globo Online. Ministra aulas nos cursos de Jornalismo e Multimeios na PUC/SP. É autora dos livros 'Jornalismo digital', e 'Hipertexto, hipermídia', ambos pela Editora Contexto.