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Entrevistas

24/3/2009

CICLO COMUNICAR EDUCAÇÃO

A gestão da sabedoria na visão de Carlos Nepomuceno

Natália Calandrini

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Professor da Coppe/UFRJ, das Faculdades Integradas Hélio Alonso e consultor de planejamento estratégico em informação especializado no mundo web, Carlos Nepomuceno joga por terra um dos conceitos mais consagrados hoje em dia, o da sociedade da informação. Para ele, a sobrecarga informacional que vivenciamos não é inédita, o mesmo aconteceu com a criação do livro. Agora, a grande novidade são as redes informatizadas. Nepomuceno, coautor do livro ‘Conhecimento em rede’ (Editora Campus Elsevier), defende que, se solucionado esse equívoco teórico-conceitual, poderemos caminhar para profundas mudanças na educação, no pensamento e no trabalho.

Nós da Comunicação – Você acredita que a formação dos comunicadores leva em conta o potencial das novas tecnologias?
Carlos Nepomuceno –
Estamos acostumados a ver o ambiente informacional como algo que não muda: o livro, a TV e o rádio se mantinham da mesma forma. Com a internet, esse ambiente se altera de tempos em tempos. A mudança na maneira de pensar da sociedade é muito grande com a introdução de novas formas de se obter conhecimento. E as mudanças acontecem em ritmo muito acelerado, então, o momento exige pensarmos como formar comunicadores para hoje e para amanhã. Hoje, não os formamos da maneira adequada. Ainda estamos na lógica pré-internet, em que o comunicador passava informação e o leitor, ouvinte ou espectador recebia passivamente. O Globo Online é um exemplo de como o leitor constrói a informação com o jornalista, e isso muda completamente a maneira de pensar a comunicação.
 
Nós da Comunicação – Quais são as dificuldades de a comunicação corporativa usar os novos meios digitais e o que pode melhorar?
C. N. –
A mudança no ambiente informacional atinge toda a sociedade. A chegada do livro, em uma cultura até então oral, veio acompanhada de transformações mais amplas: o declínio da monarquia, a instituição do parlamento, a revolução industrial. O que passamos hoje não é apenas uma mudança na comunicação. Essa é a primeira etapa. A segunda é institucional. Teremos novas alterações no modelo de empresa, de sociedade e de governo. A campanha do Obama reflete um novo mundo, em que os eleitores não são os mesmos, e os candidatos também não. Para o trabalho de hoje, precisamos usar toda a informação disponível para entender a direção na qual a sociedade caminha e nos prepararmos para sermos úteis nesse novo mundo.

Nós da Comunicação – Você defende que não existe uma verdade absoluta e que essa dificultaria a evolução do conhecimento. Qual seria o caminho para formarmos cidadãos capazes de ver a realidade por diversos ângulos?
C. N. –
A escola foi constituída para educar pessoas para trabalharem na linha de montagem, e ela ainda forma pessoas que apenas repetem. Hoje, porém, as empresas demandam profissionais que pensem, criem, avaliem e reformulem processos. Esses profissionais não estão saindo dos bancos escolares. Isso obrigará as escolas a repensarem seu papel. Os professores se veem na posição de passar informação para o aluno, mas agora esse aluno pode ter um cabedal de informações que complemente a aula. Antes, tínhamos uma mídia com poucas verdades, logo, achávamos que as verdades eram poucas. Agora, com a internet, os blogs e outros ambientes, para cada assunto percebemos que existem maneiras e maneiras de pensar. A escola não pode continuar olhando de cima para baixo, deve compartilhar conhecimentos.

Nós da Comunicação – Qual é a definição do que você chama de "gestão da sabedoria"? De que forma o profissional pode contribuir para essa nova gestão no meio corporativo?
C. N. –
Vivemos uma tsunami informacional. Nesse contexto, qual é a diferença entre um cidadão e outro ou entre uma empresa e outra? Não é receber informações. É a sabedoria para entender o tipo de informação que está ali, perceber onde ela se encaixa e usá-la para avançar como cidadão, país ou empresa. Falo de um conceito que não utilizamos muito – a sabedoria, que pressupõe uma visão mais ampla e holística. A nova geração acha que a tecnologia vai resolver todos os problemas, mas ela é apenas parte deles. Um exemplo: o Second Life foi considerado o futuro da internet, as empresas investiram em ações nesse espaço e ele acabou ficando na periferia da rede. Como você distingue se algo é relevante ou não? É preciso ter visão histórica e conceitos para lidar com as informações que recebemos.

Nós da Comunicação – Você também questiona a ideia de vivermos na sociedade da informação. Mas o mundo atual armazena grande volume de dados e promove intensa troca pelas redes da internet. O que representaria esse novo cenário?
C. N. –
Quando o livro surgiu, a overdose de informação foi proporcional à população existente na época. Hoje, somos 7 bilhões, então, o volume de informações é maior. A internet só faz sentido nesse mundo, pois atende às necessidades da sociedade atual. Se acontecesse uma catástrofe, e a população diminuísse para 40 mil pessoas, a internet deixaria de existir. Dizemos estar na primeira sociedade da informação e existe de fato uma explosão informacional, mas já houve outras. A novidade é o ambiente de rede. Precisamos superar essa crise conceitual-teórica para entender a sociedade de rede e saber como mudar a vida das pessoas.

 

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